Caminho de Santiago de Compostela

Como respeitar seu próprio ritmo no Caminho de Santiago sem se comparar

Peregrino caminhando no próprio ritmo no Caminho de Santiago

Respeitar o próprio ritmo no Caminho de Santiago significa caminhar na velocidade e na distância que o seu corpo sustenta por muitos dias seguidos – e não na de quem passa por você. Na prática: começar com etapas curtas, conversar sem perder o fôlego, fazer pausas regulares, aceitar ser ultrapassado e combinar com companheiros de caminhar separados durante o dia, se os ritmos forem diferentes. A comparação é uma das maiores causas de lesões e frustração na peregrinação. Quem chega primeiro ao albergue não ganha nada além de uma cama mais cedo.

Organizei, em 2019, um roteiro de 31 dias para fazer o Caminho Francês em 24. Caminhava até mais tarde quase todos os dias e terminei com oito bolhas estouradas. Não era comparação com os outros – era com um plano que eu mesmo tinha feito. O efeito, porém, é o mesmo: quando o ritmo é ditado por algo de fora do corpo, o corpo cobra.

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Por que a comparação é tão forte no Caminho

  • Você vê os mesmos peregrinos todos os dias e percebe quem anda mais rápido.
  • Há quem conte quilômetros e etapas como conquistas.
  • Albergues públicos por ordem de chegada criam a sensação de corrida.
  • Grupos formados no caminho tendem a seguir o ritmo do mais rápido.
  • Redes sociais mostram etapas longas e chegadas triunfais, não os dias de dor.

Como encontrar o seu ritmo

O teste da conversa

Se você consegue conversar enquanto caminha, sem perder o fôlego, o ritmo está sustentável. Se não consegue, está rápido demais para um dia inteiro.

O teste da manhã seguinte

O melhor indicador do ritmo certo é como você acorda no dia seguinte. Se as pernas respondem e a vontade de caminhar aparece, o ritmo foi adequado. Se acorda com dores fortes e desânimo, foi demais.

Comece devagar

Os três primeiros dias são de adaptação. Faça etapas menores do que acha que consegue. É mais fácil aumentar depois do que se recuperar de uma lesão.

Pausas regulares

Paradas curtas a cada uma ou duas horas, para beber água, comer algo e aliviar os pés, rendem mais do que caminhar direto até a exaustão.

SinalO que indica
Respiração ofegante constanteRitmo rápido demais
Dor que aumenta ao longo do diaSobrecarga
Chegar ao albergue sem energia para nadaEtapa longa demais
Acordar dispostoRitmo adequado
Prazer em caminharVocê encontrou o seu passo

Caminhando com outras pessoas

Ritmos diferentes são o principal desafio de quem caminha acompanhado. A solução mais comum é simples: cada um caminha no seu passo durante o dia, e o encontro é no fim da etapa ou numa parada combinada. Quem anda mais rápido ganha tempo para descansar; quem anda mais devagar não se força. Grupos formados no caminho funcionam melhor assim, com liberdade para se separar e se reencontrar.

Ser ultrapassado faz parte

Você vai ser ultrapassado o tempo todo – por gente mais jovem, mais velha, com mochilas maiores ou menores. Também vai ultrapassar. Nada disso diz quem é melhor peregrino. Peregrinos chegam a Santiago em ritmos completamente diferentes, todos com a mesma credencial cheia de carimbos. E começar rápido demais é uma das causas mais comuns de tendinite e sobrecarga nas primeiras semanas, segundo guias especializados.

Dois peregrinos em ritmos diferentes na Meseta do Caminho de Santiago

A “corrida” pelas camas

Nos trechos mais movimentados, especialmente no verão, muitos peregrinos aceleram para chegar cedo aos albergues públicos, que funcionam por ordem de chegada. Essa corrida silenciosa é uma das maiores fontes de comparação e de lesão no Caminho. Algumas formas de sair dela:

  • Reservar albergues privados ou pensões nas datas e lugares de maior procura.
  • Dormir em vilarejos intermediários, fora das cidades-etapa.
  • Viajar fora da alta temporada.
  • Aceitar que, em alguns dias, será preciso caminhar alguns quilômetros a mais até achar cama – e planejar isso com calma, não com pressa.

Menos números, mais Caminho

Relógios e aplicativos que medem velocidade, ritmo e quilômetros podem ser úteis, mas também alimentam a comparação – com os outros e consigo mesmo. Experimente, em alguns dias, caminhar sem olhar os números. Guie-se pelo corpo, pela paisagem, pelas paradas. Muitos peregrinos descobrem que os dias mais lembrados são justamente os que não foram medidos.

Ritmo e ego

Às vezes, acelerar tem menos a ver com o corpo e mais com a vontade de provar algo: que é forte, que está em forma, que não é o último. O Caminho tem um jeito particular de desmontar essa necessidade. Ninguém, na praça do Obradoiro, pergunta quanto tempo você levou. Perguntam de onde você veio e como foi.

Comparação também é interna

Às vezes, a comparação não é com os outros, mas com o plano, com a expectativa ou com uma ideia de como “deveria” ser. O roteiro desenhado em casa não conhece seus pés, o clima do dia nem o cansaço acumulado. Ajustar o plano ao corpo, e não o contrário, é a melhor forma de chegar inteiro.

O ritmo também é interno

O Caminho tem um tempo próprio. Como escrevi depois da minha andança, sobre o cascalho barulhento, a vida do peregrino entra em uma nova dimensão: os dias duram uma eternidade. Caminhar no seu ritmo não é só questão física; é também dar espaço para o que acontece por dentro, nos silêncios e nas pausas.

Como treinar o ritmo antes da viagem

O ritmo certo não se descobre no Caminho: começa a ser descoberto no treino. Nas caminhadas de preparação, observe:

  • Quantos quilômetros por hora você caminha no plano, com mochila, sem ficar ofegante.
  • Quanto esse ritmo cai nas subidas.
  • Depois de quantas horas o cansaço aparece.
  • Como você acorda depois de dois dias seguidos de caminhada longa.

Com essas informações, fica mais fácil planejar etapas realistas e, no Caminho, resistir à tentação de acompanhar quem anda mais rápido. Você já sabe qual é o seu passo – só precisa confiar nele.

Guarde isso: o ritmo muda ao longo do Caminho. O que parece lento na primeira semana pode virar o passo natural na terceira, quando o corpo já se adaptou. Deixe a velocidade aumentar sozinha, sem forçar.

Uma última ideia: em algum dia de cada semana, saia por último do albergue. Deixe a multidão partir, tome o café com calma e caminhe sozinho no seu passo. A sensação de não estar atrasado em relação a ninguém costuma ser libertadora.

Perguntas frequentes

Qual o ritmo ideal no Caminho de Santiago?

O que você consegue sustentar por vários dias seguidos, conversando sem perder o fôlego e acordando disposto no dia seguinte.

É ruim caminhar mais devagar que os outros?

Não. Ritmo mais lento costuma significar menos lesões e mais tempo para aproveitar o caminho.

Como caminhar em grupo com ritmos diferentes?

Cada um no seu passo durante o dia, com pontos de encontro combinados.

Devo seguir as etapas dos guias?

Como referência, sim. Mas ajuste a distância ao seu corpo, não o contrário.

Cada um no seu passo

O Caminho não tem pódio. Tem uma praça no fim, que recebe todos do mesmo jeito. Caminhe no seu ritmo, pare quando precisar, deixe passar quem tem pressa. A peregrinação é sua – e a chegada também.

Fontes consultadas

Este artigo se baseia na experiência do autor no Caminho Francês, em 2019, registrada no Seu Mochilão.

Rafael Kosoniscs

Sou jornalista e publicitário, tenho 36 anos e viajo de mochila nas costas há 12 invernos. Tenho a mochilagem e o montanhismo como paixões. Vou publicar meu primeiro livro este ano – e você já está convidado(a) para o lançamento. Fique de olhos nas redes para não perder, ok? Siga: @seumochilao | @rafaelkosoniscs

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