Caminho de Santiago de Compostela

Astorga e Ponferrada no Caminho Francês: Cruz de Ferro e castelo templário

Castelo templário de Ponferrada no Caminho Francês

Depois de dias de Meseta, o Caminho Francês muda de cara. Em Astorga, o horizonte plano começa a dar lugar às montanhas de León, e a rota sobe até a Cruz de Ferro, o ponto mais alto do Caminho Francês, antes de descer para a região do Bierzo e chegar a Ponferrada, a cidade do castelo templário. São poucos dias, mas muito intensos, física e simbolicamente.

Neste guia, explico o que ver em Astorga e Ponferrada, como são as etapas entre as duas cidades, o significado da Cruz de Ferro e os cuidados com a subida e a longa descida.

Astorga: Gaudí, chocolate e cocido

Astorga é uma cidade pequena com patrimônio de cidade grande. Foi um importante centro romano, Asturica Augusta, e ainda conserva parte das muralhas. Ali o Caminho Francês recebe também os peregrinos da Via de la Plata.

  • Palácio Episcopal: projetado por Antoni Gaudí, abriga o Museu dos Caminhos.
  • Catedral de Santa María: mistura de gótico, renascentista e barroco, ao lado do palácio.
  • Museu do Chocolate: lembra a tradição chocolateira da cidade.
  • Cocido maragato: prato típico servido em ordem inversa, começando pelas carnes e terminando na sopa.

Astorga é um bom lugar para um dia de descanso antes da montanha. Se o corpo estiver pedindo, aproveite. Veja como organizar pausas em preparação física e psicológica para o Caminho.

Etapas entre Astorga e Ponferrada

EtapaDistância aproximadaDestaques
Astorga → Rabanal del Camino20 kmAldeias maragatas, início da subida suave
Rabanal → Foncebadón6 kmVila de montanha recuperada
Foncebadón → Cruz de Ferro → Molinaseca20 kmPonto mais alto, Manjarín, El Acebo, descida longa
Molinaseca → Ponferrada8 kmEntrada no Bierzo e chegada ao castelo

Muitos peregrinos dividem o trecho em dois dias: Astorga a Rabanal ou Foncebadón e, no dia seguinte, a travessia da montanha até Molinaseca ou Ponferrada. A divisão depende do seu ritmo e da hospedagem disponível.

A Cruz de Ferro

A Cruz de Ferro é uma pequena cruz de ferro no alto de um poste de madeira, sobre um monte de pedras, a cerca de 1.500 metros de altitude. É o ponto mais alto do Caminho Francês. A tradição pede que o peregrino leve uma pedra de casa e a deixe ali, como símbolo de um peso, uma dor ou uma intenção que decide largar no caminho.

É um dos momentos mais emocionantes da rota para muita gente. Há quem chegue ao amanhecer, em silêncio, e quem chore sem entender bem por quê. Se você pretende cumprir o ritual, pense antes na sua pedra e no que ela representa.

Manjarín e El Acebo

Logo depois da Cruz de Ferro, a rota passa por Manjarín, quase uma aldeia abandonada, conhecida por um refúgio muito simples e cheio de símbolos templários. Em seguida, vem El Acebo, uma vila de casas de pedra e varandas de madeira, ótima para uma parada antes da descida.

A descida para Molinaseca: cuidado com os joelhos

A descida de El Acebo para Molinaseca é longa, íngreme em vários trechos e com pedras soltas. É um dos pontos do Caminho Francês em que mais peregrinos se machucam ou sentem os joelhos. Algumas dicas:

  • Use bastões e ajuste o comprimento para a descida
  • Dê passos curtos e não corra para “acabar logo”
  • Com chuva, redobre a atenção, porque as pedras ficam escorregadias
  • Se o joelho doer, pare, alongue e considere seguir pelo acostamento da estrada, onde a inclinação é mais constante

Molinaseca, no pé da montanha, tem uma ponte medieval e um rio onde muitos peregrinos molham os pés no verão. É um ótimo lugar para dormir se o dia já tiver sido pesado.

Palácio Episcopal de Gaudí em Astorga, no Caminho Francês

Ponferrada: o castelo dos Templários

Ponferrada é a principal cidade do Bierzo. Seu cartão-postal é o Castelo dos Templários, uma fortaleza com muralhas e torres que lembra a presença da Ordem do Templo na proteção dos peregrinos medievais. Também vale visitar a Basílica de la Encina e o centro histórico.

A partir de Ponferrada, o Caminho atravessa vinhedos do Bierzo rumo a Villafranca del Bierzo e, depois, sobe ao O Cebreiro, porta de entrada da Galícia. Veja o percurso completo em distâncias e rotas do Caminho de Santiago.

Onde dormir

Astorga e Ponferrada têm boa oferta de albergues, pensões e hotéis. Nas vilas de montanha, como Rabanal, Foncebadón e El Acebo, a oferta é menor e enche rápido na alta temporada. Em baixa temporada, confirme a abertura. Rabanal é conhecida pelo albergue mantido por uma confraria britânica e pelos cantos gregorianos no mosteiro local, segundo o calendário dos monges.

Como se preparar para a montanha de León

Depois de uma semana ou mais de planície, o corpo se acostuma ao terreno plano. A subida até a Cruz de Ferro é gradual, mas longa, e a descida exige músculos que ficaram pouco usados na Meseta. Por isso, vale chegar a Astorga com alguma folga física e não emendar etapas muito longas antes da montanha.

  • Clima: no alto, o tempo muda rápido. Leve uma camada quente e capa de chuva, mesmo no verão.
  • Água: há fontes e bares em Rabanal, Foncebadón e El Acebo, mas os trechos entre eles são de subida ou descida. Saia com a garrafa cheia.
  • Horário: sair cedo de Foncebadón permite chegar à Cruz de Ferro com pouca gente e com a luz da manhã.
  • Peso: é um bom momento para revisar a mochila. Cada quilo a menos alivia a descida.

No meu Caminho, comecei com 12 kg nas costas e terminei com 10 kg. Em trechos de montanha como este, essa diferença se sente em cada passo.

O Bierzo: vinho, castanhas e paisagem verde

Ao chegar a Ponferrada, você entra no Bierzo, uma comarca de clima mais ameno, com vinhedos, castanheiros e hortas. A uva mencía e os vinhos da região aparecem nos menus, assim como os pimentões assados e o botillo, um embutido típico. É uma mudança de paisagem e de sabor em relação à Meseta.

A etapa seguinte, de Ponferrada a Villafranca del Bierzo, atravessa vilas como Cacabelos e campos de vinhedos. Villafranca, com a Igreja de Santiago e sua Porta do Perdão, é a última cidade grande antes da subida ao O Cebreiro e da entrada na Galícia.

Perguntas frequentes

Qual é o ponto mais alto do Caminho Francês?

A região da Cruz de Ferro, por volta de 1.500 metros de altitude.

Preciso levar uma pedra de casa para a Cruz de Ferro?

Não é obrigatório. É uma tradição. Quem não trouxe pode escolher uma pedra no caminho.

Quantos dias de Astorga a Ponferrada?

Em geral, dois dias, somando cerca de 50 km.

Dá para fazer a descida para Molinaseca com joelho sensível?

Dá, com bastões, calma e, se necessário, usando o acostamento da estrada em parte do trecho.

Conclusão

Astorga e Ponferrada marcam a saída da Meseta e a entrada nas montanhas do Caminho Francês. Entre as duas, estão a Cruz de Ferro, um dos lugares mais simbólicos da rota, e uma descida que pede cuidado. Programe bem as etapas, respeite o joelho e reserve um momento para a sua pedra. Depois, desça sem pressa: o Bierzo e a Galícia ainda têm muito Caminho pela frente.

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Fontes consultadas

Rafael Kosoniscs

Sou jornalista e publicitário, tenho 36 anos e viajo de mochila nas costas há 12 invernos. Tenho a mochilagem e o montanhismo como paixões. Vou publicar meu primeiro livro este ano – e você já está convidado(a) para o lançamento. Fique de olhos nas redes para não perder, ok? Siga: @seumochilao | @rafaelkosoniscs

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