Para o Caminho de Santiago, tanto bota quanto tênis funcionam – o que não funciona é calçado novo, apertado ou nunca testado em caminhadas longas. Tênis de trilha, mais leves e ventilados, viraram a escolha de muitos peregrinos entre a primavera e o outono, quando o terreno é seco e o calor pesa. Botas de cano médio fazem mais sentido no inverno, em rotas de montanha, com chuva frequente ou para quem precisa de mais firmeza no tornozelo. A regra que vale para os dois: meio número a mais, sola com boa aderência e muitos quilômetros de teste antes da viagem.
No checklist que publiquei em 2019, a recomendação era bota amaciada. Continua sendo uma boa escolha para muita gente. Mas a experiência acumulada de milhares de peregrinos mostra que não existe resposta única: depende da época, da rota, do peso que você carrega e, sobretudo, dos seus pés.
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Bota ou tênis: a comparação
| Critério | Bota de trekking | Tênis de trilha |
|---|---|---|
| Peso | Maior | Menor |
| Ventilação | Menor; pés esquentam mais | Maior; secam mais rápido |
| Proteção do tornozelo | Maior, sobretudo no cano médio | Menor |
| Impermeabilidade | Comum em modelos com membrana | Existe, mas os modelos respiráveis são mais comuns |
| Amortecimento | Varia; geralmente mais firme | Geralmente mais macio |
| Tempo de adaptação | Maior; precisa ser amaciada | Menor |
| Melhor uso | Inverno, chuva, montanha, mochila pesada | Primavera a outono, terreno seco, mochila leve |
Quando a bota é a melhor escolha
- Caminhadas entre novembro e março, com frio, chuva e lama.
- Rotas com mais montanha e terreno irregular, como o Caminho Primitivo.
- Peregrinos com histórico de torção de tornozelo.
- Quem carrega mochila mais pesada.
- Quem já caminha com bota há anos e se adaptou bem.
A bota exige amaciamento. Comprar uma semana antes da viagem é um erro clássico. Use-a em caminhadas progressivamente mais longas por algumas semanas, até ter certeza de que não aperta nem cria pontos de atrito.
Quando o tênis é a melhor escolha
- Caminhadas entre maio e outubro, com tempo seco e calor.
- Rotas de terreno mais suave, como os trechos finais do Francês e do Português.
- Mochila leve ou transporte de mochila.
- Peregrinos que sentem os pés esquentarem muito em botas.
O tênis de trilha tem sola com mais aderência e estrutura um pouco mais firme que a de um tênis de corrida comum. Para o Caminho, prefira esse tipo ao tênis de corrida de asfalto, que tende a escorregar em pedras molhadas e a se desgastar mais rápido.
Impermeável ou respirável?
A dúvida é tão comum que terá um post próprio aqui no blog. Em resumo: calçados impermeáveis protegem da chuva leve e das poças, mas esquentam mais e, se a água entrar por cima, demoram muito a secar. Calçados respiráveis molham com mais facilidade, mas secam rápido. Entre maio e outubro, a tendência entre peregrinos é preferir os respiráveis; no inverno, os impermeáveis fazem mais sentido.
Tamanho e ajuste: o detalhe que evita bolhas
Depois de horas de caminhada, os pés incham. Por isso, muitos peregrinos usam calçados meio número – às vezes um número inteiro – acima do habitual. Na descida, os dedos não podem bater na frente do calçado. Teste em loja com a meia que vai usar no Caminho, de preferência no fim do dia, quando os pés estão maiores.
Cadarço bem amarrado também conta. Ajuste mais firme no peito do pé e um pouco mais solto na ponta. Em descidas longas, aperte um pouco mais para o pé não escorregar para a frente.

Meias e palmilhas
A meia é parte do calçado. Prefira meias próprias para caminhada, de lã merino ou tecido sintético que afasta a umidade, sem costuras grossas. Há quem use meia fina por baixo e uma mais grossa por cima, para reduzir o atrito. Leve dois ou três pares e troque sempre que molharem. Palmilhas personalizadas podem ajudar quem tem problemas de pisada, mas precisam ser testadas antes, como o calçado.
Teste antes de ir
Não importa se é bota ou tênis: o calçado do Caminho precisa ter muitos quilômetros antes do primeiro dia. Na minha preparação, caminhei quatro horas, três vezes por semana, durante três meses. Mesmo assim, terminei com oito bolhas. Imagine com um calçado sem teste. Faça pelo menos duas caminhadas longas em dias seguidos com o calçado escolhido, a meia e a mochila carregada.
Calçado por rota e por época
| Situação | Sugestão |
|---|---|
| Sarria ou Tui a Santiago, entre maio e setembro | Tênis de trilha respirável |
| Caminho Francês completo, primavera ou outono | Tênis de trilha robusto ou bota leve, conforme o hábito |
| Caminho Primitivo ou do Norte | Bota leve ou tênis de trilha com sola agressiva |
| Qualquer rota entre novembro e março | Bota impermeável de cano médio |
| Peregrino com tornozelo frágil | Bota de cano médio, em qualquer época |
A tabela é uma referência. Se você já caminha há anos com um tipo de calçado e se dá bem com ele, essa experiência vale mais do que qualquer recomendação genérica.
Quando trocar o calçado no meio do Caminho
Às vezes, o calçado que funcionou nos treinos não funciona na sequência de dias do Caminho. Alguns sinais de que é hora de mudar:
- Bolhas novas surgindo sempre no mesmo ponto, mesmo com curativo.
- Unhas roxas pelo impacto dos dedos na frente do calçado.
- Dor na sola que piora a cada dia.
- Sola gasta, sem aderência em pedras e descidas.
Cidades maiores do Caminho, como Pamplona, Logroño, Burgos, León e Ponferrada, no Francês, têm lojas de esporte. Trocar de calçado no meio da viagem não é o ideal, porque o novo também precisa de adaptação. Mas, se o atual estiver machucando de verdade, insistir costuma sair mais caro.
O segundo par
Leve sempre um chinelo ou uma sandália leve. É o que você vai usar no banho do albergue, para passear à noite e, principalmente, para deixar os pés respirarem depois de seis horas fechados. Alguns peregrinos levam sandálias de trilha, que também servem para caminhar trechos curtos se o calçado principal machucar.
Uma última dica sobre o segundo par: escolha um modelo com tiras firmes, que permita caminhar algumas centenas de metros até o mercado ou o restaurante sem escorregar. Nos fins de tarde, quando os pés já não querem saber de bota nem de tênis, é ele que leva você para jantar com os outros peregrinos. Leve e simples, mas não descartável.
Perguntas frequentes
Posso fazer o Caminho de Santiago de tênis?
Pode. Tênis de trilha são usados por muitos peregrinos, principalmente entre a primavera e o outono. Evite tênis de corrida de asfalto e modelos sem aderência.
Preciso de bota impermeável?
No inverno e em épocas de muita chuva, ajuda. No verão, pode esquentar demais os pés. Escolha conforme a época da viagem.
Quanto tempo antes devo comprar o calçado?
Com pelo menos dois a três meses de antecedência, para ter tempo de amaciar e testar em caminhadas longas.
Devo comprar um número maior?
Muitos peregrinos usam meio número a mais por causa do inchaço dos pés. Teste com a meia do Caminho e no fim do dia.
O melhor calçado é o seu
A discussão entre bota e tênis rende horas de conversa nos albergues. No fim, o melhor calçado é o que você já testou, que não aperta, que não esquenta demais e que você esquece que está usando. Num Caminho longo, seus pés vão dar centenas de milhares de passos até Santiago. Cuide deles desde a loja.
Fontes consultadas
Informações pesquisadas em outubro de 2026.


















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