A peregrinação a Santiago de Compostela começou no início do século IX, quando, segundo a tradição, foi descoberto na Galícia o túmulo atribuído ao apóstolo Tiago Maior. O rei Afonso II, das Astúrias, visitou o local e mandou erguer a primeira igreja, e a notícia atraiu peregrinos de toda a Europa. Na Idade Média, o Caminho se tornou uma das três grandes peregrinações da cristandade, ao lado de Roma e Jerusalém. Depois de séculos de declínio, renasceu no fim do século XX e hoje recebe mais de meio milhão de peregrinos por ano.
Minha história com o Caminho começou num sebo de Porto Alegre, em 2014, com o livro “The Camino”, de Shirley MacLaine. A leitura me mostrou que aquela peregrinação tinha um viés diferente de qualquer trekking. Anos depois, já na estrada, eu a descreveria como um trajeto desgastado pelos séculos, mas que vive integrado com a modernidade. Entender a história muda a forma de olhar cada ponte, cada igreja e cada seta amarela.
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Linha do tempo do Caminho de Santiago
| Período | O que aconteceu |
|---|---|
| Século I | Segundo a tradição, o apóstolo Tiago prega na Península Ibérica; após sua morte em Jerusalém, seu corpo teria sido levado à Galícia |
| Início do século IX | Descoberta do túmulo atribuído ao apóstolo; visita do rei Afonso II, das Astúrias |
| Séculos XI a XIII | Auge medieval: pontes, hospitais, mosteiros e cidades crescem ao longo das rotas |
| Século XII | O Códice Calixtino reúne textos sobre o apóstolo e um guia para peregrinos |
| Século XVI em diante | Declínio, com guerras, a Reforma Protestante e mudanças religiosas na Europa |
| 1879 | Relíquias, escondidas séculos antes, são reencontradas na Catedral |
| Anos 1980 | Renascimento do Caminho; o padre Elías Valiña, de O Cebreiro, impulsiona a sinalização com setas amarelas |
| 1985 | O centro histórico de Santiago se torna Patrimônio Mundial |
| 1987 | O Caminho é declarado o primeiro Itinerário Cultural Europeu |
| 1993 | A Unesco inscreve o Caminho Francês como Patrimônio Mundial |
| 2015 | A inscrição se estende às rotas do norte da Espanha |
| 2025 | Recorde de mais de 530 mil Compostelas entregues |
A tradição do apóstolo
Tiago Maior foi um dos doze apóstolos de Jesus. A tradição cristã conta que ele pregou na Península Ibérica e, de volta a Jerusalém, foi executado por volta do ano 44. Seus discípulos teriam levado o corpo de barco até a costa da Galícia, desembarcando perto de Padrón, e o sepultado no interior. Durante séculos, o local teria sido esquecido. Historiadores discutem os detalhes dessa narrativa, mas é ela que dá origem a toda a peregrinação.
A descoberta do túmulo
No início do século IX, segundo a tradição, um eremita chamado Paio viu luzes misteriosas num bosque e avisou o bispo Teodomiro, de Iria Flavia, que identificou ali o túmulo do apóstolo. O rei Afonso II, das Astúrias, viajou de Oviedo até o local – trajeto que deu origem ao Caminho Primitivo – e mandou construir a primeira igreja. Em torno dela nasceu a cidade de Santiago de Compostela.
O auge medieval
Entre os séculos XI e XIII, o Caminho viveu seu período de ouro. Reis, ordens religiosas e cidades investiram em pontes, estradas, hospitais e albergues para receber peregrinos de toda a Europa. Muitas das cidades do Caminho Francês cresceram por causa desse movimento. No século XII, o Códice Calixtino reuniu sermões, relatos de milagres e um verdadeiro guia de viagem para peregrinos, com descrição das rotas e conselhos práticos. É desse período também o Pórtico da Glória, a obra-prima românica do Mestre Mateus na Catedral.
Por que a concha
A vieira, abundante na costa galega, virou o símbolo dos peregrinos que chegavam a Santiago. Levá-la de volta era a prova de que a viagem tinha sido feita. Hoje, a concha aparece na sinalização, nas mochilas e nos marcos de quilometragem.

O declínio
A partir do século XVI, guerras, epidemias, a Reforma Protestante e mudanças políticas e religiosas na Europa reduziram muito o fluxo de peregrinos. No fim daquele século, as relíquias do apóstolo foram escondidas dentro da Catedral, por temor de ataques à costa galega, e o paradeiro exato se perdeu. Só em 1879 elas foram reencontradas, e a Igreja reconheceu a autenticidade alguns anos depois.
O renascimento no século XX
O Caminho voltou a crescer na segunda metade do século XX. Um nome é sempre lembrado: o padre Elías Valiña, de O Cebreiro, que estudou as rotas históricas e incentivou a sinalização com as setas amarelas que hoje guiam todos os peregrinos. Nos anos 1980, as visitas do papa João Paulo II a Santiago deram visibilidade internacional à peregrinação. Em 1987, o Conselho da Europa declarou o Caminho o primeiro Itinerário Cultural Europeu, e em 1993, ano santo, a Unesco inscreveu o Caminho Francês como Patrimônio Mundial.
O Ano Santo Jacobeu
Uma das tradições mais antigas ligadas à peregrinação é o Ano Santo Compostelano, celebrado sempre que o dia 25 de julho, festa de Santiago, cai num domingo. Nesses anos, a Catedral abre a Porta Santa e a cidade recebe ainda mais peregrinos. Os anos santos se repetem em intervalos irregulares, de 6, 5, 6 e 11 anos. O próximo é 2027 – e a expectativa é de um Caminho mais movimentado do que nunca, a julgar pelos recordes recentes.
O último Ano Santo foi atípico: previsto para 2021, acabou prorrogado até 2022 por causa da pandemia. Ainda assim, ajudou a consolidar a retomada do Caminho, que em poucos anos superou todos os números anteriores. É mais um capítulo de uma história que, ao longo de mais de mil anos, alternou auge, esquecimento e renascimento.
O Caminho hoje
Em 2025, mais de 530 mil pessoas receberam a Compostela – um recorde. Os motivos são variados: religiosos, espirituais, culturais, esportivos ou pessoais. A peregrinação que começou como devoção medieval virou também uma experiência de autoconhecimento e de encontro entre pessoas de todo o mundo. As rotas são as mesmas; quem as percorre é que mudou.
Para quem caminha, a história está à vista o tempo todo: nas pontes românicas construídas para os peregrinos, nos antigos hospitais transformados em albergues, nos nomes de ruas e vilarejos que lembram o apóstolo. Vale levar alguma leitura sobre o tema – ou simplesmente perguntar aos moradores. Muitos guardam histórias locais que nenhum guia registra.
Perguntas frequentes
Quando começou o Caminho de Santiago?
No início do século IX, com a descoberta do túmulo atribuído ao apóstolo Tiago, segundo a tradição.
Quem foi o primeiro peregrino?
A tradição aponta o rei Afonso II, das Astúrias, que viajou de Oviedo até o túmulo pouco depois da descoberta.
Por que o símbolo do Caminho é a concha?
A vieira, comum na costa da Galícia, era levada de volta pelos peregrinos como prova da viagem e virou símbolo da peregrinação.
Desde quando o Caminho é Patrimônio Mundial?
O Caminho Francês foi inscrito pela Unesco em 1993, e as rotas do norte da Espanha, em 2015. O centro histórico de Santiago é Patrimônio Mundial desde 1985.
Mais de mil anos de passos
Cada peregrino que sai hoje de Saint-Jean, do Porto ou de Sarria repete, à sua maneira, um gesto com mais de mil anos. É um trajeto desgastado pelos séculos, mas que vive integrado com a modernidade de maneira impressionante. Saber disso não torna a caminhada mais leve – mas a torna maior.
Fontes consultadas
Informações pesquisadas em outubro de 2026. Aspectos da tradição são objeto de debate entre historiadores.


















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