Caminho de Santiago de Compostela

Melide e o polvo à feira: a parada mais saborosa do Caminho Francês

Prato de polvo à feira com páprica e azeite, especialidade de Melide

Pergunte a qualquer peregrino que passou pelo Caminho Francês o que comeu em Melide, e a resposta quase sempre será a mesma: polvo. A pequena cidade galega, a pouco mais de 50 km de Santiago, ficou famosa pelas pulperias, casas especializadas no polvo à feira, servido em pratos de madeira, com azeite, sal grosso e páprica. Para muita gente, é a refeição mais lembrada de toda a viagem.

Neste guia, explico o que é o polvo à feira, como ele é servido, onde Melide fica nas etapas, o que mais ver na cidade e alguns cuidados para aproveitar sem pesar na caminhada do dia seguinte.

Onde fica Melide no Caminho

Melide fica na província da Corunha, no trecho final do Caminho Francês. É ali que o Caminho Primitivo, que vem de Oviedo, se une ao Francês, aumentando ainda mais o movimento de peregrinos. A cidade é parada natural entre Palas de Rei e Arzúa.

EtapaDistância aproximada
Palas de Rei → Melide15 km
Melide → Arzúa14 km
Melide → Santiagocerca de 53 km

Muitos peregrinos fazem a etapa longa de Palas de Rei a Arzúa, cerca de 29 km, e param em Melide só para o almoço. Outros preferem dormir na cidade e jantar polvo com calma. Veja o desenho das etapas finais em distâncias e rotas do Caminho de Santiago.

O que é o polvo à feira

O polvo à feira, ou pulpo a la gallega, é um prato tradicional das feiras rurais galegas, daí o nome. O polvo é cozido em grandes panelas de cobre, cortado em rodelas com tesoura e servido sobre um prato de madeira, temperado com azeite de oliva, sal grosso e páprica, doce ou picante.

  • Como acompanha: pão rústico galego e, às vezes, batatas cozidas, os “cachelos”.
  • Bebida tradicional: vinho branco ou tinto da região, muitas vezes servido em tigela de cerâmica, a “cunca”.
  • Como se come: com palitos ou garfos, direto do prato de madeira, normalmente compartilhado na mesa.

As pulperias de Melide funcionam como grandes salões, com mesas compridas onde peregrinos de vários países acabam sentando juntos. Faz parte da graça.

Quanto custa?

O preço varia com a casa, a temporada e o tamanho da porção, e muda de um ano para outro. Em vez de confiar em valores antigos, olhe o cardápio na porta. Em geral, uma porção dá para dividir entre duas pessoas.

Outras delícias de Melide

  • Melindres: rosquinhas doces com cobertura de açúcar, típicas da cidade.
  • Almendrados: doces de amêndoa vendidos em padarias locais.
  • Queijo de Arzúa-Ulloa: queijo galego cremoso, produzido na região vizinha.

O que ver em Melide

Além da comida, Melide tem patrimônio que vale meia hora de caminhada leve depois do banho:

  • Igreja de Santa María de Melide: templo românico, na entrada da cidade, ainda pelo Caminho.
  • Cruzeiro junto à capela de San Roque: considerado um dos cruzeiros mais antigos da Galícia.
  • Igreja de San Pedro: no centro, com portada românica.
  • Museu da Terra de Melide: sobre a história e os costumes da comarca.

Cuidados para aproveitar sem prejudicar a caminhada

Polvo, pão e vinho no almoço, com mais 14 km pela frente até Arzúa, podem pesar. Algumas dicas práticas:

  • Se for seguir caminhando, prefira porções menores e mais água que vinho
  • Se possível, deixe o banquete para o jantar e durma em Melide
  • Hidrate-se bem: o sal grosso do prato aumenta a sede
  • Quem tem restrições alimentares deve perguntar sobre o preparo, já que muitas casas trabalham com cardápio curto

Se você segue alguma dieta específica, confira as dicas gerais para peregrinos em o que levar para o Caminho, incluindo lanches práticos.

Pulperia tradicional em Melide com peregrinos comendo polvo à feira

A reta final começa aqui

Para muitos peregrinos, Melide é o ponto em que Santiago começa a parecer perto. Faltam dois ou três dias de caminhada, e a sensação de chegada vai crescendo a cada etapa. É também onde se reencontram rostos conhecidos que vinham por rotas diferentes, já que o Primitivo deságua ali.

Na minha chegada a Santiago, em 27 de setembro de 2019, eu estava na frente da Catedral às 6h50 da manhã. Os últimos dias antes disso têm um peso especial, e uma mesa de polvo dividida com outros peregrinos é uma boa forma de viver essa reta final. Leia mais sobre a chegada em vida peregrina no Caminho de Santiago.

Como funciona uma pulperia, passo a passo

Para quem nunca entrou numa pulperia galega, o funcionamento pode parecer confuso no começo. Em geral, é assim:

  • Você entra, procura um lugar nas mesas compridas e senta onde houver espaço, mesmo ao lado de desconhecidos.
  • O garçom traz o pão e pergunta a bebida. Vinho da casa é a escolha mais comum.
  • Você pede o polvo por porção ou por prato. Se estiver em dupla, uma porção costuma bastar para começar.
  • Na entrada, muitas casas mantêm a panela de cobre à vista, e dá para ver o polvo sendo cortado com tesoura.
  • Para completar, peça pimentões de Padrón, queijo da região ou um prato quente.

Não tenha pressa. A refeição faz parte da experiência, e a conversa à mesa costuma se estender.

O encontro de dois Caminhos

A partir de Melide, quem vem pelo Caminho Primitivo, saído de Oviedo, passa a dividir a trilha com quem vem pelo Francês. São peregrinos que atravessaram as montanhas das Astúrias, muitas vezes com mais de duas semanas de estrada, e que agora se misturam ao fluxo que chegou de Sarria, de León ou dos Pirineus.

Essa mistura dá ao trecho final um clima particular. Nas mesas das pulperias, é comum ouvir trocas de histórias entre quem enfrentou o Primitivo e quem atravessou a Meseta. Cada um com o seu Caminho, todos com o mesmo destino.

Depois de Melide: Arzúa e o queijo

A etapa seguinte leva a Arzúa, outra cidade com tradição gastronômica. A região é conhecida pelo queijo Arzúa-Ulloa, de denominação de origem, macio e de sabor suave. Na primavera, a cidade costuma realizar uma festa dedicada ao queijo. Entre Melide e Arzúa, o caminho atravessa bosques de eucalipto e carvalho, riachos e pequenas aldeias, com subidas e descidas curtas que lembram que a Galícia nunca é totalmente plana.

Perguntas frequentes

Melide fica a quantos quilômetros de Santiago?

Cerca de 53 km pelo Caminho Francês.

O polvo à feira é servido o dia todo?

Na maioria das pulperias, sim, durante o horário de almoço e jantar. Em baixa temporada, algumas casas fecham em certos dias.

É caro comer polvo em Melide?

Os preços mudam conforme a casa e o ano. Confira o cardápio na entrada e divida a porção, que costuma ser generosa.

O Caminho Primitivo passa por Melide?

Sim. É em Melide que o Primitivo se junta ao Caminho Francês.

Conclusão

Melide é parada obrigatória para quem gosta de comer bem no Caminho. O polvo à feira, servido em prato de madeira e dividido em mesas compridas, é mais do que um prato: é um ritual de convivência entre peregrinos. Planeje a etapa para aproveitar com calma, respeite o corpo e guarde espaço para os melindres. Santiago está logo ali, e cada mesa compartilhada no caminho vira lembrança da viagem.

++ Leia mais:

Fontes consultadas

Rafael Kosoniscs

Sou jornalista e publicitário, tenho 36 anos e viajo de mochila nas costas há 12 invernos. Tenho a mochilagem e o montanhismo como paixões. Vou publicar meu primeiro livro este ano – e você já está convidado(a) para o lançamento. Fique de olhos nas redes para não perder, ok? Siga: @seumochilao | @rafaelkosoniscs

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