Caminho de Santiago de Compostela

A solidão no Caminho de Santiago: como lidar com os momentos difíceis

Peregrino sozinho contemplando a Meseta ao entardecer: solidão no Caminho de Santiago

A solidão no Caminho de Santiago aparece de duas formas: como um silêncio procurado, que muita gente vai buscar justamente na peregrinação, e como uma sensação difícil, que pesa em dias de chuva, de dor, de saudade ou quando o grupo de amigos segue em frente. Para os momentos difíceis, ajuda saber que eles passam, buscar companhia nos albergues e nas refeições, manter contato com quem está em casa, escrever e, se a tristeza se prolongar ou ficar intensa demais, pedir ajuda. Para os momentos bons, a solidão do Caminho pode ser uma das experiências mais marcantes da vida.

Já descrevi o isolamento do Caminho como um longo banho de sete, oito, nove horas por dia. Passei longos dias sozinho no Caminho Francês, em 2019, e também senti necessidade de dividir a andança com outras pessoas. Percebi que trocar experiências fazia parte do processo – e que o equilíbrio entre a solidão e uma boa dose de companhia talvez seja um dos segredos de uma vivência agradável.

++ Leia mais:

Solidão escolhida e solidão sentida

Solidão escolhidaSolidão sentida
Silêncio para pensar ou não pensar em nadaSensação de estar sozinho demais
Liberdade de ritmo e de decisõesSaudade de casa, das pessoas, da rotina
Espaço para reflexão e oraçãoTristeza em dias de chuva, dor ou cansaço
Encontro consigo mesmoSensação de estar à parte dos grupos

As duas convivem. O mesmo trecho silencioso que foi libertador numa manhã pode pesar numa tarde de chuva. Saber disso ajuda a não se assustar quando a sensação muda.

Quando a solidão pesa

  • Nos dias de chuva e de paisagem cinza.
  • Depois de uma despedida de alguém com quem você caminhou por dias.
  • Quando o corpo dói e não há com quem dividir.
  • Nos trechos longos e vazios, como partes da Meseta.
  • Nas noites em albergues onde ninguém fala a sua língua.
  • Nos dias em que tudo parece dar errado.

O que ajuda

Busque companhia, nem que por uma refeição

No Caminho, a companhia está a uma conversa de distância. O menu do peregrino, a cozinha coletiva do albergue, a pausa do café: são lugares onde a conversa surge com facilidade. Não precisa ser uma amizade para a vida toda – um jantar dividido já muda o dia.

Converse com quem está em casa

Uma ligação ou uma troca de mensagens com alguém próximo pode aliviar muito. Combine horários, considerando o fuso horário.

Escreva

Colocar no papel o que está sentindo ajuda a organizar os pensamentos. O diário de viagem também guarda esses momentos, que muitas vezes fazem sentido só depois.

Cuide do básico

Fome, cansaço e noites mal dormidas aumentam qualquer tristeza. Comer bem, descansar e dormir são parte do cuidado emocional.

Mude o cenário

Uma noite num lugar mais acolhedor, um dia de descanso numa cidade, uma igreja tranquila para sentar. Às vezes, um ambiente diferente basta.

O lado bonito da solidão

Muita gente procura o Caminho justamente para estar só. Longe da rotina, das notificações e das obrigações, sobra espaço para pensar na vida – ou para não pensar em nada. Muitos peregrinos relatam que foi nos trechos solitários que tomaram decisões importantes, fizeram as pazes com algo do passado ou simplesmente descansaram a cabeça. Encontrei, ao longo do Caminho, muitos andarilhos que preferiram companhia do começo ao fim – e percebi que muitos não sabiam ficar sozinhos. Aprender a estar só também faz parte da peregrinação.

Peregrino jantando sozinho em bar de vilarejo, momento de solidão no Caminho de Santiago

Quando procurar ajuda

Tristeza e saudade são comuns e costumam passar. Mas, se você perceber que a tristeza está intensa, persistente, que você não consegue sair da cama, comer ou encontrar sentido em nada, ou se tiver pensamentos de se machucar, procure ajuda. Fale com alguém de confiança, com o hospitaleiro, com um serviço de saúde. Na Espanha, em situações de emergência, ligue 112. Pedir ajuda é um gesto de cuidado consigo mesmo – e o Caminho está cheio de gente disposta a ajudar.

A solidão em cada fase do Caminho

Primeiros dias

Tudo é novo: a rotina, a língua, os lugares. Para quem viaja sozinho, a sensação de estar deslocado é comum nos primeiros dias. Costuma diminuir quando você começa a reconhecer rostos nos albergues e nas paradas.

Meio do Caminho

Com a rotina estabelecida, aparecem os grupos informais e as amizades de estrada. É também quando vêm as primeiras despedidas, porque os ritmos se separam. Em rotas longas, trechos como a Meseta, com horizontes abertos e vilarejos espaçados, convidam ao silêncio – para uns, um alívio; para outros, um peso.

Reta final

Nos últimos 100 quilômetros, o movimento cresce muito, e a solidão muda de forma: há gente por toda parte, mas às vezes você se sente sozinho no meio da multidão, sobretudo se vem caminhando há semanas. Ao mesmo tempo, aumentam os reencontros, e a expectativa da chegada une as pessoas.

Pequenos rituais que acompanham

  • Escrever três linhas no diário ao fim de cada dia.
  • Mandar uma foto para alguém querido toda noite.
  • Visitar a igreja do vilarejo ao chegar, mesmo sem ser religioso, pelo silêncio.
  • Cumprimentar todos os peregrinos com um “buen Camino”.
  • Ter um objeto da casa – uma foto, uma pedra, um bilhete – na mochila.

São gestos simples, mas criam continuidade num dia a dia que muda o tempo todo. E lembram que, mesmo longe, você não caminha desligado de tudo o que deixou.

Despedidas fazem parte

Uma das formas mais comuns de solidão no Caminho vem das despedidas: o grupo que você formou se desfaz porque cada um tem um ritmo, uma data, um destino. Dói. Mas também é comum reencontrar, dias depois, alguém de quem você se despediu. E, em Santiago, a praça do Obradoiro costuma reunir muita gente que se separou pelo caminho.

Uma lição que vem de longe

Entre as pessoas que conheci no Caminho estava Anna, uma californiana de 84 anos, que fazia a peregrinação pela segunda vez depois de perder o marido. “Eu tinha duas escolhas: esperar a morte em minha casa ou aproveitar o resto da minha vida”, contou. A solidão, para ela, não era um motivo para ficar parada – era um motivo para caminhar. Nem toda solidão se resolve assim, mas a frase dela ficou registrada no relato que publiquei sobre aquela viagem.

Perguntas frequentes

É normal se sentir sozinho no Caminho de Santiago?

Sim, sobretudo em dias difíceis ou depois de despedidas. A sensação costuma passar com companhia, descanso e tempo.

Como fazer amigos no Caminho?

Nos albergues, nas cozinhas coletivas, no menu do peregrino e nas paradas para café. Uma pergunta simples abre muitas conversas.

Fazer o Caminho sozinho é solitário demais?

Depende de você. Há quem procure o silêncio e há quem prefira companhia. Nas rotas principais, é fácil ter as duas coisas.

O que fazer se a tristeza não passar?

Converse com alguém de confiança e procure ajuda de um profissional de saúde. Em emergências, ligue 112.

Sozinho, mas não só

Mesmo quem caminha sozinho está cercado por uma comunidade silenciosa: os peregrinos de ontem e de amanhã, os hospitaleiros, os moradores que apontam a direção. A solidão do Caminho, quando dói, raramente dura. E, quando é escolhida, pode ser um presente.

Fontes consultadas

Este artigo se baseia na experiência do autor no Caminho Francês, em 2019, registrada no Seu Mochilão. Em caso de sofrimento emocional intenso, procure ajuda profissional.

Rafael Kosoniscs

Sou jornalista e publicitário, tenho 36 anos e viajo de mochila nas costas há 12 invernos. Tenho a mochilagem e o montanhismo como paixões. Vou publicar meu primeiro livro este ano – e você já está convidado(a) para o lançamento. Fique de olhos nas redes para não perder, ok? Siga: @seumochilao | @rafaelkosoniscs

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