Poucas ordens medievais despertam tanta curiosidade quanto os Templários. No Caminho de Santiago, eles aparecem em castelos, igrejas, nomes de vilas e em muitas lendas. Parte dessa presença é histórica e documentada; outra parte é tradição, hipótese ou imaginação popular. Para o peregrino, conhecer esses lugares acrescenta uma camada fascinante à caminhada, desde que se saiba separar a história das lendas.
Neste guia, explico quem eram os Templários, qual foi a relação deles com as peregrinações e quais lugares do Caminho Francês estão ligados à ordem. Uso fontes de turismo e patrimônio e indico quando se trata de tradição ou teoria.
Quem eram os Templários
A Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, conhecida como Ordem do Templo, foi fundada no início do século XII, em Jerusalém, para proteger os peregrinos que viajavam à Terra Santa. Era uma ordem religiosa e militar, com monges cavaleiros. Ao longo de dois séculos, acumulou terras, castelos e influência em toda a Europa, até ser dissolvida no início do século XIV.
Na Península Ibérica, os Templários participaram de conflitos da Reconquista e receberam propriedades em várias regiões, algumas delas próximas às rotas de peregrinação a Santiago.
Templários e peregrinos
Como a missão original da ordem era proteger peregrinos, é natural associá-la ao Caminho de Santiago. Há registros de propriedades e comendas templárias em regiões atravessadas pela rota, e a tradição atribui a eles a proteção de trechos e a manutenção de hospitais. Porém, nem toda construção chamada de “templária” tem comprovação histórica. Outras ordens, como a Ordem de Santiago e a de São João, também tiveram papel importante na acolhida dos peregrinos.
Lugares ligados aos Templários no Caminho Francês
Castelo de Ponferrada
É o grande símbolo templário do Caminho. A fortaleza, no Bierzo, está associada à ordem, que teria recebido a cidade e reforçado suas defesas para proteger a passagem dos peregrinos. O castelo foi ampliado em épocas posteriores e hoje pode ser visitado. Ponferrada costuma realizar uma noite templária anual, com recriações históricas.
Santa María la Blanca, em Villalcázar de Sirga
Na Meseta, essa igreja grandiosa para uma vila pequena é tradicionalmente ligada à Ordem do Templo. Abriga esculturas e túmulos medievais de grande valor artístico.
Terradillos de los Templarios
O nome da vila, na Meseta, remete à ordem. Segundo a tradição local, a região teria pertencido aos Templários.
Igreja do Santo Sepulcro, em Torres del Río
Pequena igreja românica de planta octogonal, em Navarra, com uma cúpula de nervuras de inspiração oriental. Sua forma lembra a do Santo Sepulcro de Jerusalém, e por isso é frequentemente associada às ordens cruzadas, inclusive aos Templários, embora a ligação não seja consenso entre historiadores.
Santa María de Eunate
Outra igreja octogonal, isolada no campo perto de Puente la Reina. É cercada de teorias que a ligam aos Templários e a rituais funerários de peregrinos. A origem exata ainda é debatida, o que só aumenta o mistério do lugar.
Manjarín
Logo depois da Cruz de Ferro, Manjarín é um refúgio muito simples, decorado com símbolos templários. Trata-se de uma homenagem contemporânea à tradição, não de uma construção medieval da ordem.
História x lenda: como separar
| Tipo de informação | Como reconhecer |
|---|---|
| História documentada | Aparece em fontes oficiais e estudos, com datas e documentos |
| Tradição local | “Segundo a tradição” ou “diz-se que”; aceita, mas sem prova definitiva |
| Teoria | Hipóteses de pesquisadores, sem consenso |
| Homenagem moderna | Decoração ou eventos recentes inspirados na ordem |
Essa distinção não tira o encanto dos lugares. Pelo contrário: ajuda a apreciar a história real e a se divertir com as lendas sabendo o que elas são.
Outras ordens no Caminho
- Ordem de Santiago: fundada no século XII, com a cruz-espada vermelha como emblema; teve papel na proteção de peregrinos e em hospitais.
- Ordem de São João (Hospitalários): manteve hospitais e propriedades ao longo de rotas de peregrinação.
- Ordens monásticas: beneditinos, cistercienses e outras ordens mantiveram mosteiros e hospitais para peregrinos.

Dicas para quem gosta do tema
- Planeje um dia de descanso em Ponferrada e visite o castelo
- Pergunte nos postos de turismo sobre visitas guiadas
- Leia sobre a história da ordem antes da viagem
- Visite as igrejas octogonais de Eunate e Torres del Río, em Navarra
- Desconfie de histórias muito fantasiosas sem fonte
Para conhecer a rota completa, veja distâncias e rotas do Caminho de Santiago.
O fim da Ordem do Templo
No início do século XIV, a Ordem do Templo foi perseguida, principalmente na França, e acabou dissolvida pelo papa Clemente V, em 1312. Seus bens foram transferidos para outras ordens ou para coroas, dependendo do reino. Na Península Ibérica, parte do patrimônio passou para outras ordens militares, e em Portugal surgiu a Ordem de Cristo, considerada uma herdeira da tradição templária. A história do fim da ordem, cheia de acusações e julgamentos, alimentou muitas das lendas que existem até hoje.
Templários no Caminho Português
Em Portugal, a presença templária também é forte. Tomar, cidade atravessada pelo Caminho Português a partir de Lisboa, foi sede da Ordem do Templo em Portugal e abriga o Convento de Cristo, Patrimônio Mundial, com a famosa charola templária. Para quem faz o Caminho desde Lisboa, é uma parada obrigatória para os interessados no tema.
Um roteiro temático
- Navarra: Eunate e Torres del Río
- Meseta: Villalcázar de Sirga e Terradillos de los Templarios
- Bierzo: Castelo de Ponferrada
- Portugal: Convento de Cristo, em Tomar
Com esse roteiro em mente, o peregrino pode transformar a caminhada numa pequena viagem pela história das ordens militares medievais, sem perder o foco no próprio Caminho.
A cruz templária e a cruz de Santiago
É comum confundir os símbolos. A cruz templária costuma ser representada como uma cruz vermelha de braços iguais, que se alargam nas pontas, sobre fundo branco. Já a cruz de Santiago, emblema da Ordem de Santiago, tem o braço inferior em forma de espada e os superiores em flor-de-lis. As duas aparecem em lojas de lembranças ao longo do Caminho, às vezes misturadas. Saber diferenciá-las ajuda a entender qual história cada objeto, igreja ou brasão está contando.
Esse pequeno conhecimento torna a observação dos detalhes muito mais interessante.
Para quem gosta de história, vale levar um pequeno caderno e anotar os brasões, cruzes e símbolos encontrados em cada igreja e castelo ao longo do percurso.
Perguntas frequentes
Os Templários protegiam os peregrinos de Santiago?
A missão da ordem era proteger peregrinos, e ela teve propriedades perto do Caminho. A extensão exata dessa proteção no Caminho de Santiago é debatida.
O Castelo de Ponferrada é templário?
Está associado à ordem, que teria recebido e fortificado a cidade, mas foi ampliado em épocas posteriores.
Eunate foi construída pelos Templários?
Há teorias nesse sentido, mas não há consenso entre historiadores.
Quando os Templários foram extintos?
A ordem foi dissolvida no início do século XIV.
Conclusão
O legado dos Templários no Caminho de Santiago mistura história, tradição e lenda. O Castelo de Ponferrada, as igrejas de Villalcázar de Sirga e as misteriosas igrejas octogonais de Navarra são paradas fascinantes para quem gosta do tema. Visite com curiosidade, separe o que é documentado do que é lenda e aproveite o mistério que acompanha esses lugares há séculos.
++ Leia mais:
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- Vida peregrina no Caminho de Santiago
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