Caminho de Santiago de Compostela

A mochila invisível: o que carregamos emocionalmente para o Caminho de Santiago

Peregrino sentado diante do vale com a mochila ao lado, bagagem emocional no Caminho de Santiago

A bagagem emocional no Caminho de Santiago não aparece na balança do aeroporto, mas pesa. Medos, lutos, culpas, decisões adiadas e expectativas viajam com você, encaixados entre a capa de chuva e o saco de dormir. E, ao contrário da mochila de verdade, essa não dá para despachar.

Este guia fala dessa mochila invisível: o que costuma ir dentro dela, por que ela parece ficar mais pesada (ou mais leve) durante a caminhada e o que você pode fazer com ela, sem promessas de cura e sem transformar a peregrinação em sessão de terapia.

O que vai dentro da mochila invisível

Cada pessoa leva a sua, mas alguns itens aparecem com frequência em quem decide fazer o Caminho:

  • Luto: a perda de alguém, de um casamento, de um emprego, de uma fase da vida.
  • Decisões pendentes: mudar de carreira, terminar uma relação, voltar a estudar, ter filhos.
  • Culpa: por algo feito ou não feito, por ter se afastado de alguém, por ter “parado” a vida para viajar.
  • Medo: de não aguentar fisicamente, de ficar sozinho, de não sentir nada de especial.
  • Expectativa: a de que o Caminho vai trazer respostas, mudar tudo, “resolver”.
  • Cansaço acumulado: anos de rotina sem pausa, que só aparecem quando a pausa chega.

Repare que a expectativa também é peso. Quem vai ao Caminho esperando uma revelação por dia pode se frustrar justamente por não recebê-la.

Por que a bagagem emocional no Caminho de Santiago aparece com tanta força

Em casa, a rotina ocupa a cabeça o dia inteiro: trabalho, trânsito, telas, conversas. No Caminho, sobra tempo. São horas por dia caminhando, muitas vezes em silêncio, com o corpo ocupado e a mente livre. É nesse espaço que os pensamentos guardados resolvem aparecer.

A antropologia oferece uma leitura interessante para isso. Victor Turner chamou de liminaridade a fase em que a pessoa já deixou o lugar social antigo e ainda não chegou ao novo, um estado “entre”. É uma interpretação acadêmica sobre ritos de passagem e peregrinações, não uma regra, mas ajuda a entender por que tanta gente se sente mais vulnerável no meio do Caminho: os papéis que protegem no dia a dia ficaram em casa.

O cansaço físico também conta. Corpo exausto tem menos energia para segurar emoções. Não estranhe se você chorar sem motivo aparente num trecho qualquer. Eu chorei em Viloria de Rioja. Acontece com muita gente, e não precisa de explicação imediata.

O lado bom: caminhar na natureza pode ajudar a soltar

Há uma notícia boa nisso tudo. Um estudo publicado em 2015 na revista PNAS, liderado por Gregory Bratman, comparou pessoas que fizeram uma caminhada de 90 minutos em área natural com pessoas que caminharam o mesmo tempo em área urbana. Quem caminhou na natureza relatou menos ruminação, aquele ciclo de pensamentos negativos repetitivos sobre si mesmo, e apresentou menor atividade numa região do cérebro associada a esse padrão. Quem caminhou na cidade não teve a mesma mudança.

É um estudo, com voluntários saudáveis e uma caminhada curta. Não dá para afirmar que o Caminho de Santiago “cura” algo. Mas ajuda a entender por que muita gente relata que os pensamentos ficam menos repetitivos depois de alguns dias andando entre campos, bosques e vilarejos.

Como lidar com a mochila invisível durante a caminhada

Reconhecer o peso é o primeiro passo. Depois, há maneiras práticas de lidar com ele no dia a dia da peregrinação.

Dê nome ao que você está carregando

Antes de viajar, ou nos primeiros dias, escreva numa folha o que você sente que está levando. Uma palavra por item basta. Dar nome a algo vago costuma deixá-lo mais manejável, e permite perceber, ao longo das semanas, o que mudou.

Escreva, mas com intenção

A escrita expressiva foi estudada pelo psicólogo James Pennebaker e outros pesquisadores. Segundo reportagem da American Psychological Association, os benefícios observados parecem depender de dar sentido à experiência, e não apenas de desabafar. A mesma reportagem lembra que escrever sobre temas dolorosos pode causar desconforto no início, e que os resultados variam entre estudos.

Na prática, no Caminho: dedique alguns minutos à noite a escrever sobre o que pesou naquele dia e tente terminar com uma frase do tipo “o que eu percebi hoje foi…”. Se escrever sobre um tema específico trouxer sofrimento intenso, pare. Não precisa forçar. Para ideias de como organizar um diário, veja como registrar sua peregrinação: diário, fotografia e vídeos.

Use um símbolo físico

Muitos peregrinos escolhem um objeto para representar o que querem deixar para trás. A tradição mais conhecida é a da Cruz de Ferro, no Caminho Francês, onde se deixam pedras. O sentido histórico e as interpretações estão em Cruz de Ferro: por que os peregrinos deixam pedras e o que significa.

O gesto não resolve a questão em si. Mas ele marca uma intenção, e marcar intenções tem força para muitas pessoas. Se você não vai passar pela Cruz de Ferro, escolha outro ponto do seu percurso que tenha sentido para você.

Trate-se como trataria um amigo

A pesquisadora Kristin Neff descreve a autocompaixão em três partes: gentileza consigo mesmo, reconhecimento de que sofrer faz parte da experiência humana comum e atenção equilibrada à dor, sem negar nem exagerar. No Caminho, isso pode ser tão simples quanto trocar “eu deveria estar melhor” por “faz sentido eu estar assim agora”.

Converse, se e quando quiser

O Caminho tem uma particularidade: estranhos se abrem com facilidade. Às vezes, contar algo para alguém que você nunca mais vai ver é mais fácil do que contar para quem está perto. Mas ninguém é obrigado a compartilhar. Silêncio também é escolha legítima.

Pedras deixadas junto ao marco da trilha, símbolo da bagagem emocional

Quando o peso aumenta em vez de diminuir

Nem todo dia vai ser leve. Há etapas em que a solidão bate forte, especialmente em trechos longos e planos, ou em dias de chuva. O post sobre a solidão no Caminho de Santiago e como lidar com os momentos difíceis traz caminhos práticos para essas horas.

O medo também pode crescer: medo de não conseguir chegar, de se machucar, de ter gastado dinheiro à toa. Se isso pesa em você antes mesmo da viagem, leia e se eu não aguentar o Caminho de Santiago?.

E aqui vai um aviso importante, dito com todo respeito: o Caminho não substitui acompanhamento profissional. Se você está passando por luto recente, depressão, crises de ansiedade ou qualquer sofrimento psíquico intenso, converse com seu médico ou psicólogo antes de viajar. Combine, se for o caso, como manter contato durante a viagem. E, se durante o Caminho você sentir que o sofrimento está ficando difícil de suportar, procure ajuda: na Espanha, o número de emergências é o 112.

O que fazer com a mochila na volta

Parte da bagagem emocional no Caminho de Santiago fica na estrada. Outra parte volta com você, às vezes mais leves, às vezes do mesmo tamanho, mas com outro jeito de serem carregadas. As duas situações são normais.

Na minha visão, a pergunta mais útil ao voltar não é “o que eu deixei lá?”, e sim “o que eu quero fazer com o que trouxe de volta?”. Uma decisão que amadureceu nas semanas de caminhada ainda precisa ser tomada em casa. Um luto que doeu menos ainda vai ter dias difíceis.

O retorno à rotina tem desafios próprios, tratados em a volta para casa depois do Caminho de Santiago.

Leia também no Seu Mochilão:

Perguntas frequentes

É normal chorar durante o Caminho de Santiago?

Sim, é muito comum. Cansaço físico, tempo de silêncio e afastamento da rotina deixam as emoções mais acessíveis. Chorar não significa que algo deu errado.

Fazer o Caminho ajuda a superar um luto?

Muitas pessoas relatam que a caminhada ajudou a elaborar uma perda, mas não há garantia. O Caminho pode ser um espaço de reflexão, não um tratamento. Em luto recente ou muito doloroso, converse com um profissional de saúde antes de ir.

Devo fazer o Caminho sozinho para lidar com questões emocionais?

Não necessariamente. Caminhar sozinho oferece mais silêncio; caminhar acompanhado oferece apoio. Algumas pessoas combinam as duas coisas, caminhando sozinhas durante o dia e reencontrando amigos à noite.

E se eu não sentir nada de especial?

Também é normal. Nem toda peregrinação traz emoções fortes, e isso não diminui a experiência. Às vezes o efeito aparece só semanas depois, já em casa.

O peso que muda de lugar

A mochila de verdade você ajusta na alça, aperta na cintura, redistribui. A invisível funciona parecido. Você nem sempre consegue tirar o peso, mas pode aprender a carregá-lo de outro jeito.

E, em algum ponto da estrada, talvez perceba que está andando um pouco mais ereto.

Fontes consultadas

Rafael Kosoniscs

Sou jornalista e publicitário, tenho 36 anos e viajo de mochila nas costas há 12 invernos. Tenho a mochilagem e o montanhismo como paixões. Vou publicar meu primeiro livro este ano – e você já está convidado(a) para o lançamento. Fique de olhos nas redes para não perder, ok? Siga: @seumochilao | @rafaelkosoniscs

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