Caminho de Santiago de Compostela

Buen Camino, Ultreia e Suseia: origem e significado das saudações peregrinas

Peregrinos rumo a vilarejo medieval, onde se ouve Ultreia e Suseia e Buen Camino

Ultreia e Suseia são saudações peregrinas registradas num manuscrito do século XII, o famoso Códice Calixtino. Hoje, quase todo mundo no Caminho diz apenas “Buen Camino”, mas essas duas palavras latinas continuam vivas em camisetas, livros, associações de peregrinos e, de vez em quando, num cumprimento trocado na trilha. Entender de onde elas vêm ajuda a perceber que, ao caminhar, você entra numa conversa que começou há quase novecentos anos.

Este post separa o que é documentado do que é interpretação. Há bastante certeza sobre a fonte medieval dessas expressões. Já o sentido exato de cada palavra é objeto de leituras diferentes, e vale conhecê-las como tal.

Buen Camino: a saudação de todos os dias

Se você fizer o Caminho hoje, vai ouvir “Buen Camino” dezenas de vezes por dia. Peregrinos dizem uns aos outros ao ultrapassar alguém na trilha. Moradores dizem da janela, do campo, do balcão do bar. Hospitaleiros dizem na despedida da manhã.

A expressão é simples: deseja que o caminho de quem passa seja bom. Ela funciona em qualquer idioma, porque mesmo quem não fala espanhol aprende em poucas horas. Em português, muitos brasileiros e portugueses dizem “Bom Caminho” entre si.

Não há registro documental preciso de quando o “Buen Camino” se tornou a saudação dominante. O que fontes especializadas sobre o Caminho, como o portal Pilgrim, registram é que ele foi tomando o lugar das antigas expressões latinas, que hoje aparecem bem menos no dia a dia. Se você quiser outras frases úteis para o percurso, o post com frases essenciais em espanhol para o Caminho ajuda.

O Códice Calixtino, o manuscrito por trás das saudações

Para entender essas duas palavras, é preciso conhecer o documento que as preserva: o Códice Calixtino, também chamado de Liber Sancti Jacobi. É um manuscrito de meados do século XII, guardado no arquivo da Catedral de Santiago de Compostela.

Alguns fatos sobre ele, segundo o material do Governo da Galícia e a enciclopédia Wikipedia:

  • Autoria atribuída, não real: o texto se apresenta como obra do papa Calixto II, mas ele já havia morrido quando o códice foi composto. Por isso os estudiosos falam em “Pseudo-Calixto”.
  • Cinco livros: liturgia, milagres atribuídos a São Tiago, a trasladação do corpo do apóstolo para a Galícia, a história de Carlos Magno e, por fim, um guia prático para peregrinos, tradicionalmente associado ao clérigo francês Aymeric Picaud.
  • Música: o códice traz algumas das composições polifônicas mais antigas da Europa.
  • Uma história recente: o manuscrito foi furtado da catedral em julho de 2011 e recuperado em julho de 2012.

O quinto livro é frequentemente chamado de primeiro guia do Caminho de Santiago, porque descreve rotas, cidades, rios e cuidados para quem viaja. Se você quer o contexto mais amplo dessa época, o post sobre a história do Caminho de Santiago ajuda a situar o códice.

Dum Pater Familias, o hino dos peregrinos

As palavras Ultreia e Suseia aparecem no refrão de um hino em latim chamado Dum Pater Familias. Segundo o material do Governo da Galícia, ele está no segundo apêndice do Códice Calixtino.

Um detalhe chama a atenção dos estudiosos: a notação musical desse hino foi escrita sem pauta, num estilo conhecido como “in campo aperto”. Para a Xunta de Galicia, isso sugere que o canto foi registrado em Santiago para preservar uma melodia que os peregrinos já cantavam ao chegar. Ou seja, o hino provavelmente nasceu na boca de quem caminhava, e só depois foi para o papel.

Algumas fontes, como o portal Pilgrim, chamam a peça também de “canção dos peregrinos flamengos”. A melodia foi transcrita para notação moderna apenas no fim do século XIX, e hoje há várias gravações disponíveis de grupos de música antiga.

O refrão mistura essas exclamações com um pedido de ajuda divina para a jornada. É, essencialmente, um canto de estrada: algo que se canta para animar os passos.

O que significam Ultreia e Suseia

Aqui entramos no terreno das interpretações. As explicações mais difundidas, registradas por fontes especializadas como o portal Pilgrim, são estas:

  • Ultreia: viria do latim ultra (além, mais) e eia, uma interjeição de estímulo. O sentido seria algo como “vamos além”, “sigam adiante”, “avante”.
  • Suseia: viria de sus (para cima) e do mesmo eia. O sentido seria “mais para cima”, “vamos mais alto”.

Essas leituras fazem sentido no contexto de um canto de peregrinos: uma palavra empurra para a frente, a outra empurra para o alto. Mas é bom saber que não há consenso absoluto. Há quem interprete a resposta como uma exclamação de celebração, próxima de um “aleluia” pela chegada. São hipóteses de filólogos e historiadores, não uma tradução oficial.

Página de manuscrito medieval com notação musical, origem de Ultreia e Suseia

Uma leitura simbólica das duas palavras

Além do sentido literal, muita gente atribui às duas palavras um significado simbólico. O que vem a seguir é interpretação, não fato histórico.

Nessa leitura, ultreia fala do movimento horizontal: o passo seguinte, a estrada que continua, a persistência de quem segue mesmo cansado. Suseia fala do movimento vertical: elevar o olhar, buscar algo maior que o próprio esforço, seja isso fé, sentido, beleza ou silêncio interior.

Juntas, as duas palavras formariam uma espécie de cruzamento: seguir em frente e, ao mesmo tempo, para cima. É uma imagem que conversa com pessoas de qualquer crença, ou de nenhuma, e talvez por isso continue tão popular entre peregrinos do mundo inteiro.

Como usar as saudações no Caminho hoje

Na prática, o “Buen Camino” resolve quase todas as situações. Ele é sempre bem-vindo e sempre entendido. Algumas observações de etiqueta:

  • Responda sempre. Quando alguém diz “Buen Camino”, o normal é devolver com outro “Buen Camino” ou um simples “gracias”.
  • Moradores também cumprimentam. Em vilas pequenas, é comum ouvir a saudação de quem não é peregrino. Um sorriso e uma resposta valem muito.
  • Ultreia é um cumprimento especial. Se alguém disser “Ultreia”, a resposta tradicional é “Et suseia” (ou “E suseia”). Hoje ela é mais comum entre peregrinos veteranos, associações e grupos que gostam da tradição.
  • Não force. Ninguém espera que você conheça as expressões latinas. Usá-las é um gesto de curiosidade, não uma obrigação.

Esses cumprimentos fazem parte de um conjunto maior de costumes que dão identidade ao Caminho. O post sobre as tradições dos peregrinos reúne outros, e o guia sobre a vieira e outros símbolos do Caminho mostra como objetos também carregam esse tipo de mensagem.

Ultreia e Suseia fora do Caminho

As duas palavras saíram da trilha e ganharam outros espaços. Aparecem em nomes de associações de amigos do Caminho, títulos de livros, músicas, lojas e projetos ligados à peregrinação. Também viraram tatuagens e frases em mochilas.

Para muitos peregrinos, dizer “ultreia” depois de voltar para casa é uma forma de lembrar a si mesmo de continuar caminhando na vida cotidiana. Não há nada de oficial nisso, mas é um uso bonito de uma palavra que, desde a origem, serviu para dar coragem a quem estava no meio da estrada.

E na chegada a Santiago, muita gente se lembra do hino que, segundo a interpretação da Xunta, era cantado justamente nesse momento. Se a chegada ainda está no seu horizonte, o post sobre como se preparar para a chegada à Catedral ajuda a viver esse dia com calma.

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Perguntas frequentes

O que significa Ultreia?

A interpretação mais difundida é “vamos além” ou “avante”, a partir do latim ultra (além) e da interjeição eia. Não há uma tradução oficial única, e alguns estudiosos propõem leituras diferentes.

Como responder quando alguém diz Ultreia?

A resposta tradicional é “Et suseia” ou “E suseia”. Se não lembrar, um “Buen Camino” também é perfeitamente aceito.

Onde aparecem Ultreia e Suseia pela primeira vez?

No hino Dum Pater Familias, preservado no Códice Calixtino, manuscrito do século XII guardado na Catedral de Santiago de Compostela.

Posso dizer Buen Camino para qualquer pessoa?

Pode. É a saudação mais comum entre peregrinos e também é usada por moradores das cidades e vilas do percurso. É sempre gentil e bem recebida.

Uma palavra para seguir adiante

O “Buen Camino” você vai aprender no primeiro dia, e ele vai acompanhá-lo até Santiago. Ultreia e Suseia são diferentes: chegam como curiosidade e ficam como lembrança de que outras pessoas, há muitos séculos, também se animaram umas às outras na mesma estrada.

Quando o cansaço apertar numa subida, talvez você se pegue repetindo baixinho a palavra antiga. Mais além. Mais acima.

Fontes consultadas

Rafael Kosoniscs

Sou jornalista e publicitário, tenho 36 anos e viajo de mochila nas costas há 12 invernos. Tenho a mochilagem e o montanhismo como paixões. Vou publicar meu primeiro livro este ano – e você já está convidado(a) para o lançamento. Fique de olhos nas redes para não perder, ok? Siga: @seumochilao | @rafaelkosoniscs

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