Caminho de Santiago de Compostela

O som do Caminho: sinos, natureza e a experiência do silêncio no Caminho de Santiago

Peregrino na Meseta com campanário ao fundo, silêncio no Caminho de Santiago

O silêncio no Caminho de Santiago não é ausência de som. É o momento em que os ruídos do cotidiano baixam o volume e outros sons, que estavam lá o tempo todo, finalmente aparecem: os próprios passos, o sino de uma vila distante, um riacho escondido, o vento no trigo. Muitos peregrinos dizem que voltam para casa escutando melhor, e não só com os ouvidos.

Este post é um convite para prestar atenção a essa dimensão do Caminho. Fala dos sinos e da tradição que eles carregam, do que a ciência já sabe sobre sons da natureza e de como praticar o silêncio de forma simples, sem regras rígidas e sem misticismo obrigatório.

A paisagem sonora do Caminho

Cada trecho do Caminho tem uma “trilha sonora” própria. Não há duas iguais, e elas mudam com a estação e o horário.

  • Os passos: o cascalho, a terra batida, o asfalto e as pedras soam diferente. Depois de alguns dias, você reconhece o terreno pelo barulho.
  • Os bastões: o toque ritmado no chão vira uma espécie de metrônomo da caminhada.
  • Os pássaros: mais presentes ao amanhecer, quando boa parte dos peregrinos já está na trilha.
  • A água: fontes de vila, riachos, chuva na capa, gotas caindo dos carvalhos na Galícia.
  • O vento: na Meseta, ele é quase o único som por longos trechos. O post sobre o que esperar da Meseta ajuda a se preparar para esses dias abertos.
  • As vozes: “Buen Camino” em vários sotaques, conversas em idiomas que você não entende, risadas num bar.

Prestar atenção a esses sons é um jeito simples de estar presente. Você não precisa fazer nada, apenas notar.

Os sinos: o relógio das vilas

Durante séculos, os sinos foram a forma de uma comunidade saber as horas, ser chamada para celebrações e acompanhar os grandes momentos da vida coletiva. No Caminho, eles ainda marcam o ritmo de muitas vilas e cidades.

Essa tradição tem reconhecimento internacional. Em 2024, a UNESCO incluiu o toque manual de sinos da Espanha e da Itália na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Segundo a UNESCO, os sinos foram usados para marcar o tempo e os dias importantes da comunidade, e o toque manual é transmitido de geração em geração, muitas vezes por sineiros voluntários.

Nem todo sino que você vai ouvir é tocado à mão; muitos hoje são automáticos. Mas a função de organizar o dia continua. Ouvir o sino de uma vila ao longe é também uma informação prática: há gente, provavelmente um bar, talvez uma fonte. Muitas dessas torres pertencem a igrejas e mosteiros históricos, e o post sobre as igrejas e mosteiros mais importantes do Caminho Francês mostra algumas delas.

A Berenguela, o sino de Santiago

Na chegada a Santiago de Compostela, um sino tem lugar especial: o da Torre do Relógio da Catedral, conhecida como Torre Berenguela. A torre tem cerca de 75 metros e começou a ser construída no século XIV; o nome vem do arcebispo Berenguel de Landoria, que deu continuidade à obra.

O grande sino, também chamado de Berenguela, marca as horas cheias, e um sino menor marca os quartos de hora. Os sinos originais racharam ao longo do tempo e foram substituídos por réplicas fundidas na Holanda e instaladas em 1990. O sino maior pesa cerca de 9.600 quilos.

Para muitos peregrinos, ouvir esse sino pela primeira vez, já na cidade, é um dos sons mais marcantes da chegada. Depois da peregrinação, vale ficar um tempo na praça sem pressa; o post sobre o que fazer em Santiago de Compostela depois da peregrinação traz outras sugestões.

O que a ciência diz sobre os sons da natureza

Há evidências de que ouvir sons naturais faz bem. Uma revisão publicada em 2021 na revista PNAS, liderada pela pesquisadora Rachel Buxton, reuniu dezenas de estudos sobre o tema e fez uma meta-análise com 18 deles.

Os autores encontraram associação entre sons naturais e redução do estresse e do incômodo, além de melhorias em humor, percepção de dor e desempenho cognitivo. Entre os tipos de som, os de água tiveram o maior efeito em saúde e emoções positivas, e os de pássaros, o maior efeito na redução do estresse e do incômodo, embora com menos estudos testando esse tipo diretamente.

Isso não significa que caminhar ouvindo pássaros cure qualquer coisa. Significa que a paisagem sonora do Caminho pode contribuir para o bem-estar de quem caminha, e que vale a pena dar espaço para ela.

Caminhar em silêncio: como praticar

Praticar o silêncio no Caminho de Santiago não exige técnica especial. Algumas sugestões, para experimentar do seu jeito:

  1. Escolha um trecho por dia para caminhar sem falar e sem fones de ouvido. Pode ser a primeira hora da manhã ou os últimos quilômetros.
  2. Avise os companheiros. Um “vou caminhar um pouco em silêncio” evita mal-entendidos.
  3. Conte sons, não quilômetros. Por alguns minutos, tente notar quantos sons diferentes você ouve.
  4. Sincronize respiração e passos sem forçar, apenas observando o ritmo que surge.
  5. Pare num lugar tranquilo por cinco minutos, de olhos fechados, só escutando.

O começo da manhã costuma ser o momento mais fácil para isso. A trilha ainda está vazia de ruídos de estrada, os pássaros estão ativos e a cabeça ainda não se encheu das decisões do dia. Se você sai cedo, experimente deixar a primeira meia hora inteira para escutar. Não precisa de meta nem de técnica: só caminhar e perceber o que chega aos ouvidos.

Muita gente associa essa prática a meditação ou oração. Outros simplesmente gostam da sensação de descanso mental. As duas formas são legítimas. Se o silêncio às vezes pesar, o post sobre a solidão no Caminho de Santiago ajuda a lidar com esses momentos.

Sinos de igreja rural com ninho de cegonhas, o som e o silêncio no Caminho

Fones de ouvido: usar ou não?

Não existe resposta certa. Música e podcasts podem ser ótimos companheiros em trechos longos e monótonos, especialmente perto de estradas. Mas usá-los o tempo todo significa abrir mão de uma parte da experiência.

Uma alternativa equilibrada:

  • Reserve os fones para trechos ruidosos, como áreas industriais ou margens de rodovia.
  • Use um fone só, ou volume baixo, para continuar ouvindo ciclistas, carros e outros peregrinos.
  • Deixe as manhãs sem fones, quando os sons naturais costumam ser mais presentes.

Usar menos o celular também ajuda a bateria a durar mais. O post sobre como economizar bateria do celular traz outras ideias.

O silêncio no Caminho de Santiago como forma de respeito

Além da experiência pessoal, o silêncio no Caminho de Santiago também é uma forma de convivência. Em igrejas, durante celebrações ou visitas, falar baixo é sinal de respeito, independentemente da sua crença.

Nos albergues, o silêncio noturno protege o descanso de quem acorda cedo. Arrumar a mochila na véspera, evitar sacos plásticos barulhentos de madrugada e usar a lanterna com cuidado são gestos pequenos que fazem diferença para todos. Nas vilas, lembre que você está passando pela casa de alguém: vozes altas de madrugada incomodam moradores que não estão de férias.

Leia também no Seu Mochilão:

Perguntas frequentes

É possível encontrar silêncio no Caminho Francês, que é tão movimentado?

Sim, principalmente se você sair em horários diferentes da maioria ou escolher trechos menos concorridos, como partes da Meseta. Mesmo em dias cheios, há momentos em que os grupos se espaçam e o silêncio aparece.

Preciso meditar para aproveitar o silêncio?

Não. Caminhar alguns minutos sem falar e sem fones já é suficiente. Se você gosta de meditação ou oração, pode incorporar, mas não é requisito.

O sino da catedral de Santiago toca a toda hora?

Segundo as informações sobre a Torre Berenguela, o sino maior marca as horas cheias e um sino menor marca os quartos de hora.

Posso usar fones de ouvido na trilha?

Pode, mas com atenção. Mantenha o volume baixo ou use um só fone nas áreas com carros e bicicletas, para ouvir o que acontece ao redor.

Ouvir o Caminho para ouvir a si mesmo

Depois de alguns dias, você talvez perceba que o silêncio de fora começa a abrir espaço para um silêncio de dentro. Os pensamentos ficam mais lentos, as preocupações perdem um pouco de urgência, e a cabeça passa a acompanhar o ritmo dos pés.

Quando voltar para casa, alguns desses sons vão voltar com você. Um sino distante, um riacho, o barulho dos passos no cascalho. Basta lembrar deles para, por um instante, estar de novo na estrada.

Fontes consultadas

Rafael Kosoniscs

Sou jornalista e publicitário, tenho 36 anos e viajo de mochila nas costas há 12 invernos. Tenho a mochilagem e o montanhismo como paixões. Vou publicar meu primeiro livro este ano – e você já está convidado(a) para o lançamento. Fique de olhos nas redes para não perder, ok? Siga: @seumochilao | @rafaelkosoniscs

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