Caminho de Santiago de Compostela

O que escrever no seu diário ao chegar a Santiago de Compostela: roteiro de perguntas para a chegada

Caderno e credencial em claustro de Santiago, diário do Caminho de Santiago na chegada

O diário do Caminho de Santiago ganha um peso diferente no dia da chegada. Depois de semanas registrando etapas, dores e encontros, a última página pede outro tipo de escrita: menos relato do que aconteceu e mais leitura do que tudo aquilo significou. E é justamente nesse dia, cansado e emocionado, que muita gente trava diante do papel em branco.

Este guia não é sobre como manter um diário ao longo da peregrinação. Isso está no post sobre como registrar sua peregrinação com diário, fotografia e vídeos. Aqui o foco é um momento específico: as horas e os dias logo depois de chegar a Santiago de Compostela, quando a Compostela está na mão e a mochila, finalmente, no chão.

Por que escrever justamente na chegada

A memória da chegada é intensa, mas frágil. Nas primeiras horas, tudo parece inesquecível. Uma semana depois, já em casa, os detalhes começam a se misturar. O nome do bar, a frase de alguém na praça, a sensação exata no corpo. Escrever no mesmo dia, ou no dia seguinte, segura esses detalhes antes que se percam.

Existe também um motivo menos óbvio. O psicólogo James Pennebaker, da Universidade do Texas, ficou conhecido por pesquisas sobre escrita expressiva, em que pessoas escreviam sobre experiências emocionais importantes. Uma reportagem da revista Monitor on Psychology, da Associação Americana de Psicologia, resume que os benefícios observados pareciam ligados à mudança de perspectiva: quem passava a usar mais palavras de causa e compreensão, como “porque” e “entendi”, tendia a se beneficiar mais. A mesma reportagem traz ressalvas importantes: os resultados variam entre grupos, alguns estudos não encontraram efeito e só desabafar não parece suficiente.

Para o diário do Caminho de Santiago, a lição prática é simples. Não basta listar o que aconteceu. Vale tentar entender o que aquilo quer dizer para você.

Antes de escrever: prepare o momento

Algumas condições ajudam a escrita a fluir:

  • Escolha um lugar calmo. Um banco numa praça menor, um café fora do centro, o quarto da pensão. A Praça do Obradoiro cheia nem sempre é o melhor lugar para pensar.
  • Deixe o celular longe. Mensagens de parabéns vão chegar o dia todo. Elas podem esperar uma hora.
  • Tenha a credencial ao lado. Os carimbos funcionam como um mapa da memória. Olhar cada um ajuda a lembrar onde você estava e com quem.
  • Não se preocupe com a forma. Ninguém vai corrigir. Frases soltas, listas e rabiscos valem tanto quanto um texto bonito.

Roteiro de perguntas para o diário do Caminho de Santiago na chegada

Use as perguntas abaixo como ponto de partida. Não precisa responder todas. Escolha as que fizerem sentido e deixe o resto para outro dia.

Sobre o momento da chegada

  1. A que horas cheguei, de onde saí naquela manhã e quantos quilômetros andei no último dia?
  2. Como estava o tempo? Quem estava comigo?
  3. Qual foi a primeira coisa que fiz ao chegar à praça?
  4. O que senti no corpo naquele instante? Alívio, cansaço, dor, leveza?
  5. A chegada foi como eu imaginava? O que foi diferente?

Registrar dados concretos tem valor. Cheguei à Catedral às 6h50 do dia 27 de setembro de 2019, e esse tipo de detalhe, anotado na hora, é o que permite reconstruir a memória anos depois.

Sobre o corpo

  1. Como estão meus pés, joelhos e costas hoje, comparados com o primeiro dia?
  2. Qual foi o dia fisicamente mais difícil? O que me fez continuar?
  3. O que meu corpo me ensinou sobre limite e sobre resistência?

Sobre as pessoas

  1. Quem foram as pessoas mais marcantes que encontrei? Anote nomes, países e uma frase de cada uma, se lembrar.
  2. Teve alguém que me ajudou sem saber? E alguém que eu ajudei?
  3. De quem vou sentir falta?
  4. Que conversa eu gostaria de ter tido e não tive?

Sobre o que mudou, ou não

  1. Por que eu vim? Essa razão ainda é a mesma agora?
  2. O que eu esperava encontrar e não encontrei?
  3. O que encontrei sem estar procurando?
  4. Existe algo que parecia urgente antes do Caminho e agora parece pequeno? E o contrário?

A pergunta 13 tem um eco curioso: na Oficina do Peregrino, quem pede a Compostela é perguntado sobre a motivação da viagem. Pode ser interessante comparar a resposta que você deu no balcão com a que escreve no diário, com mais calma.

Sobre a volta

  1. O que quero levar do Caminho para o dia a dia? Escolha uma ou duas coisas concretas.
  2. O que quero deixar para trás?
  3. Que conselho eu daria para a pessoa que eu era no primeiro dia?
  4. Que conselho a pessoa do primeiro dia daria para mim hoje?
Peregrino escrevendo o diário do Caminho de Santiago na escadaria da cidade velha

A Compostela e o diário: dois registros diferentes

A Compostela é o documento que a Oficina do Peregrino entrega a quem cumpre os requisitos, como percorrer pelo menos os últimos 100 km a pé ou 200 km de bicicleta, com os carimbos na credencial. Segundo a Oficina, ela é gratuita. Existe ainda o certificado de distância, um documento separado, pago, que registra os quilômetros percorridos, o ponto de partida e as datas. Os detalhes estão no post sobre como conseguir a Compostela.

São registros oficiais e valiosos. Mas eles dizem que você chegou, não o que aconteceu com você no caminho. Esse papel é do diário. Uma sugestão: na mesma página em que escrever sobre a chegada, cole uma cópia ou uma foto impressa da credencial carimbada. Os dois registros, o oficial e o pessoal, ficam lado a lado.

Ideias além das perguntas

Se as perguntas não funcionarem, tente outras formas de escrita:

  • Carta para você mesmo: escreva para ser lida daqui a um ano. Conte o que viveu e o que espera ter mantido.
  • Carta para alguém: para quem ficou em casa, para quem morreu, para quem você conheceu no caminho. Você decide se envia ou não.
  • Lista de imagens: dez cenas que você não quer esquecer, uma por linha, sem explicação.
  • Mapa desenhado: trace o percurso à mão e marque nele os momentos mais fortes.
  • Uma palavra por etapa: se a viagem teve 30 dias, escreva 30 palavras. Às vezes isso diz mais do que três páginas.

Escreva também nos dias seguintes

A chegada não termina no primeiro dia. Muitas pessoas sentem a ficha cair só depois, no voo de volta ou já em casa. Por isso vale reservar algumas páginas em branco para depois.

Se você seguir até Finisterre e Muxía, por exemplo, escreva de novo diante do mar. Compare as duas entradas. E, já de volta, use o diário para acompanhar a readaptação à rotina, um tema que o post sobre a volta para casa depois do Caminho aborda em detalhe.

Na minha visão, a página escrita três meses depois da chegada costuma ser uma das mais reveladoras do diário inteiro. Ela mostra o que ficou e o que já foi embora.

Cuidado com a pressão de escrever algo profundo

Uma armadilha comum é achar que o texto da chegada precisa ser épico. Não precisa. Se tudo o que você conseguir escrever for “cheguei, estou cansado, estou feliz”, isso já é um registro honesto.

Também pode acontecer de a escrita trazer à tona emoções difíceis, como luto ou arrependimento. A própria reportagem da APA lembra que escrever sobre temas dolorosos pode causar desconforto no início. Vá no seu ritmo. Se algo pesar demais, pare, caminhe um pouco e volte depois. E, se o assunto for sério, conversar com um profissional de saúde mental é sempre uma boa escolha.

Leia também no Seu Mochilão:

Perguntas frequentes

Preciso ter escrito um diário durante todo o Caminho para fazer a página da chegada?

Não. Mesmo quem não registrou nada ao longo das etapas pode escrever sobre a chegada. As perguntas deste roteiro funcionam sozinhas.

É melhor escrever à mão ou no celular?

Tanto faz. Muita gente prefere o papel por ser mais lento e longe das notificações. Se escrever no celular, faça backup no mesmo dia.

Quanto tempo devo dedicar a essa escrita?

Não existe tempo mínimo. Vinte ou trinta minutos já rendem bastante. O importante é escrever enquanto a memória ainda está fresca.

Posso compartilhar o que escrevi?

Pode, se quiser. Mas escreva primeiro pensando só em você. Texto feito para os outros tende a esconder justamente o que é mais verdadeiro.

A última página antes da primeira

O diário do Caminho de Santiago termina, de certa forma, onde a vida comum recomeça. A página da chegada é a ponte entre as duas coisas. Nela cabe o cansaço, a gratidão, a dúvida e alguma promessa.

Daqui a alguns anos, quando você abrir esse caderno sem querer numa gaveta, é essa página que vai te devolver ao granito da praça. Escreva pensando nesse reencontro.

Fontes consultadas

Rafael Kosoniscs

Sou jornalista e publicitário, tenho 36 anos e viajo de mochila nas costas há 12 invernos. Tenho a mochilagem e o montanhismo como paixões. Vou publicar meu primeiro livro este ano – e você já está convidado(a) para o lançamento. Fique de olhos nas redes para não perder, ok? Siga: @seumochilao | @rafaelkosoniscs

Adicionar comentário

Clique aqui para postar um comentário

Planejamento

Inscreva-se!

Guia credenciado