Caminho de Santiago de Compostela

O chamado do Caminho de Santiago: por que sentimos vontade de peregrinar?

Peregrino diante da trilha entre trigais ao amanhecer, imagem do chamado do Caminho de Santiago

O chamado do Caminho de Santiago existe, e não é só figura de linguagem. Muita gente descreve a vontade de peregrinar como uma ideia que chega sem convite, volta em momentos aleatórios e não vai embora até ser levada a sério. Entender de onde vem esse impulso ajuda você a decidir com mais clareza se é hora de ir.

Este texto não vai tentar convencer você a fazer as malas. A proposta é outra: olhar para esse chamado com calma, separar o que é desejo de fuga do que é desejo de busca, e mostrar o que as pesquisas e os números oficiais dizem sobre quem decide caminhar até Santiago de Compostela.

O que é o chamado do Caminho de Santiago

Chamado é o nome que os peregrinos dão para uma vontade persistente. Pode surgir depois de um filme, de uma conversa, de uma perda, de uma mudança de emprego. Pode surgir sem motivo aparente. O ponto em comum é a insistência: a ideia volta.

Uma pesquisa publicada pela editora Springer com futuros peregrinos de primeira viagem ajuda a dar forma a isso. Os autores analisaram relatos de viagem e aplicaram um questionário a 228 pessoas que planejavam fazer o Caminho pela primeira vez. Cerca de 46% concordaram com uma frase que descrevia um “forte chamado interior”. Outros 8% disseram que decidiram ir sem saber direito por quê.

Ou seja: se você sente isso e não consegue explicar, você não está sozinho. Pra valer.

O mesmo estudo encontrou três grandes grupos de motivação: secular (descanso, aventura, natureza, desafio físico), espiritual (busca de sentido, autoconhecimento) e religiosa. E aqui vem o dado mais interessante: nenhum dos perfis encontrados era puramente religioso. A maior parte deles misturava motivações diferentes.

Por que sentimos vontade de peregrinar hoje

O Caminho nasceu como peregrinação cristã medieval, e essa raiz continua viva. Mas os números mostram que, hoje, ele atrai gente com motivos muito diferentes.

Segundo dados da Oficina do Peregrino de Santiago divulgados no início de 2026, 530.987 peregrinos chegaram à cidade em 2025, recorde histórico. Cerca de um terço declarou motivo exclusivamente religioso. Perto de 46% disseram ter motivos religiosos e de outro tipo. E menos de 20% caminharam por razões não religiosas.

Outro estudo, o projeto Ultreya, publicado no Journal of Happiness Studies em 2024, perguntou aos participantes por que estavam indo. As respostas mais comuns foram:

  • crescimento pessoal (71%);
  • lazer e prazer (46%);
  • interesse cultural (42%);
  • condicionamento físico e saúde (41%);
  • esclarecer valores pessoais (33%);
  • motivação religiosa (14%).

As duas fontes usam perguntas e públicos diferentes, então os números não se comparam diretamente. Mas o recado é parecido: a vontade de peregrinar raramente tem um motivo só.

O que essa mistura diz sobre você

Na minha visão, isso tira um peso das costas. Você não precisa ter uma razão nobre e bem formulada para ir. Pode ser curiosidade. Pode ser cansaço da rotina. Pode ser fé. Pode ser tudo junto. O Caminho acolhe todas essas entradas, e a Catedral de Santiago, na própria descrição da Compostela, pede motivação religiosa ou espiritual, ou ao menos uma atitude de busca.

Guarde essa ideia: atitude de busca. Ela cabe em qualquer crença.

Chamado ou fuga? Como diferenciar

Aqui mora uma pergunta honesta que vale fazer antes de comprar passagem. Às vezes a vontade de ir é, no fundo, vontade de sair de onde se está. Isso não é errado. Mas muda o jeito de se preparar.

Algumas perguntas ajudam:

  1. A ideia apareceu agora, num momento de crise, ou ela volta há meses ou anos?
  2. Se o problema que você quer deixar para trás desaparecesse amanhã, você ainda iria?
  3. Você consegue imaginar o Caminho com dor, chuva e cansaço, e ainda assim quer ir?
  4. O que você espera trazer de volta, e não só deixar lá?

Se as respostas apontam para algo que você quer encontrar, e não apenas algo de que quer escapar, o chamado provavelmente tem raiz. Se apontam só para fuga, tudo bem também. Só vale saber que o problema costuma esperar você na volta. Sobre isso, recomendo ler o post sobre a volta para casa depois do Caminho de Santiago.

Quando o chamado demora anos para virar viagem

Nem todo chamado vira passagem comprada na mesma semana. Para muita gente, a ideia amadurece devagar.

Comprei o livro da Shirley MacLaine sobre o Caminho num sebo em Porto Alegre, em 2014. Fiz o Caminho Francês em 2019. Cinco anos separam as duas datas. Conto isso só para mostrar que a distância entre ouvir e atender pode ser longa, e isso é normal.

Se você está nesse intervalo, aproveite. É um bom momento para ler, assistir a filmes e conversar com quem já foi. Tem uma lista de livros e filmes sobre o Caminho de Santiago aqui no blog que pode alimentar essa fase sem pressa.

Sinais práticos de que a hora está chegando

  • Você começa a pesquisar etapas, e não só fotos.
  • Você faz contas de quanto custa e de quantos dias precisa.
  • Você conversa com família ou trabalho sobre a ausência.
  • O medo deixa de ser “será que é para mim?” e vira “será que eu aguento?”.

Esse último ponto é importante. Quando o medo fica prático, a decisão costuma estar tomada. Para essa fase, o texto sobre o medo de não aguentar o Caminho de Santiago ajuda a colocar os pés no chão.

Marco de pedra com concha e seta amarela, sinal do chamado do Caminho de Santiago

O chamado do Caminho de Santiago não é uma promessa

Vale dizer com todas as letras: ouvir o chamado não garante nenhuma transformação. O Caminho não resolve casamento, não cura luto por decreto e não entrega respostas prontas.

O estudo Ultreya, por exemplo, encontrou melhora em indicadores de estresse, ansiedade e satisfação com a vida entre peregrinos, comparados a pessoas em férias comuns. Mas os próprios autores lembram que as diferenças foram pequenas, que o desenho do estudo não prova causa e efeito e que quem escolhe peregrinar já chega com um perfil diferente de quem escolhe uma praia.

Eu prefiro olhar assim: o Caminho cria condições. Muitas horas de silêncio, um corpo cansado, pouca distração, gente de vários países dividindo o mesmo quarto. O que você faz com essas condições é seu.

E não é conversa fiada, não: tem dia em que a única coisa que você vai pensar é onde vai dormir e se a bolha vai estourar. O lado espiritual convive com o lado prático o tempo todo. Se quiser uma visão sem romantização, leia o que ninguém conta sobre o Caminho de Santiago.

Como ouvir esse chamado com os pés no chão

Se a vontade persiste, transforme-a em pequenos passos concretos. Isso evita duas armadilhas: adiar para sempre ou ir no impulso sem preparo.

  1. Escreva o que você sente. Uma página, sem filtro. Por que agora? O que você procura? Guarde esse texto para reler depois.
  2. Pesquise o básico. Rotas, distâncias, épocas do ano. O guia para fazer o Caminho de Santiago pela primeira vez organiza essa parte.
  3. Teste o corpo. Faça caminhadas longas aos fins de semana. O chamado também precisa passar pelas pernas.
  4. Defina uma janela de tempo. Mesmo que seja daqui a dois anos. Data no calendário muda a conversa interna.
  5. Converse com quem foi. Não para copiar a experiência de ninguém, mas para ouvir o que deu errado também.

Nenhum desses passos obriga você a ir. Eles só dão chão para a decisão.

Leia também no Seu Mochilão:

Perguntas frequentes

Preciso ser religioso para sentir o chamado do Caminho de Santiago?

Não. Os números da Oficina do Peregrino e de pesquisas acadêmicas mostram que muita gente mistura motivos religiosos, espirituais, culturais e físicos. A própria Oficina do Peregrino aceita, ao lado da motivação religiosa ou espiritual, uma atitude de busca.

O chamado do Caminho de Santiago é igual para todo mundo?

Não. Para alguns é uma ideia que volta durante anos. Para outros aparece de repente, depois de um acontecimento marcante. Em uma pesquisa com futuros peregrinos, quase metade descreveu um chamado interior forte, e uma parte menor disse ter decidido sem saber o motivo.

E se eu estiver indo só para fugir de um problema?

Não há proibição para isso, e muita gente começa assim. Só vale ter em mente que o Caminho não resolve o problema por você. Pensar no que você quer trazer de volta, e não só no que quer deixar, costuma ajudar.

Quanto tempo esperar entre sentir o chamado e ir?

Não existe prazo certo. O importante é usar o intervalo para se preparar: pesquisar, treinar o corpo e organizar a vida para a ausência.

A pergunta que fica na mochila

Talvez você nunca consiga explicar direito por que quer ir. Tudo bem. Muita gente só entende o próprio motivo depois de algumas centenas de quilômetros, e outras pessoas voltam para casa sem ter entendido, e ainda assim satisfeitas.

O chamado não pede explicação. Pede resposta. E a resposta pode começar hoje, com uma página escrita à mão e uma caminhada mais longa no domingo.

Fontes consultadas

Rafael Kosoniscs

Sou jornalista e publicitário, tenho 36 anos e viajo de mochila nas costas há 12 invernos. Tenho a mochilagem e o montanhismo como paixões. Vou publicar meu primeiro livro este ano – e você já está convidado(a) para o lançamento. Fique de olhos nas redes para não perder, ok? Siga: @seumochilao | @rafaelkosoniscs

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