Caminho de Santiago de Compostela

O primeiro passo do peregrino: expectativas, entrega e novos começos

Bota dando um passo sobre seta amarela, o primeiro passo do peregrino

O primeiro passo do peregrino é, ao mesmo tempo, o mais fácil e o mais difícil do Caminho de Santiago. Fácil porque é só um passo. Difícil porque carrega meses, às vezes anos, de expectativa, planejamento e dúvida. Entender o que acontece nesse momento ajuda você a vivê-lo com mais leveza.

Seja em Saint-Jean-Pied-de-Port, em Sarria, no Porto ou em qualquer outra cidade, o primeiro dia tem algo em comum para todo mundo: é o dia em que o Caminho deixa de ser ideia e vira chão.

O que o primeiro passo do peregrino carrega

Quando você finalmente sai do albergue com a mochila nas costas, não está carregando só roupa e garrafa d’água. Está carregando:

  • as expectativas que criou ao ler, ver filmes e ouvir histórias;
  • o medo de não aguentar;
  • a ansiedade de não se perder;
  • a vontade de que tudo dê certo;
  • as razões, claras ou não, que trouxeram você até ali.

É peso demais para um passo só. Por isso tanta gente sente uma mistura estranha de euforia e aperto no peito na primeira manhã. Isso é normal.

De onde a maioria começa

Segundo dados da Oficina do Peregrino de Santiago divulgados no início de 2026, o Caminho Francês recebeu cerca de 45% dos peregrinos que chegaram a Santiago em 2025. O Caminho Português tradicional ficou com 19%, e o Português da Costa, com 16%. Isso significa que o seu primeiro passo provavelmente será dado ao lado de muita gente estreando junto com você.

Se o seu começo é nos Pirineus, vale ler o post sobre o que fazer em Saint-Jean-Pied-de-Port antes de começar o Caminho. Se for pelos últimos 100 km, o guia sobre Sarria antes de começar o Caminho ajuda com a chegada e a primeira noite.

A noite anterior também conta

Muita gente esquece que o primeiro passo começa na véspera. A noite antes do primeiro dia costuma ser agitada: chegada à cidade de partida, busca pela credencial, primeiro albergue, gente desconhecida no beliche de cima. É comum dormir mal.

Não brigue com isso. Algumas atitudes simples deixam a manhã mais tranquila:

  • Arrume a mochila na noite anterior, deixando por cima o que vai usar primeiro: lanterna, capa de chuva, garrafa d’água.
  • Confira o trajeto do dia uma única vez e guarde o celular. Ler dez relatos diferentes às onze da noite só aumenta a ansiedade.
  • Separe a roupa do dia num canto fácil de achar no escuro, sem acordar ninguém.
  • Coma algo leve e beba água. O corpo vai precisar.
  • Escreva duas linhas sobre como você está se sentindo. Daqui a algumas semanas, vai ser curioso reler.

E se o sono não vier, tudo bem. Uma noite mal dormida raramente estraga o primeiro dia. O que costuma estragar é a pressa de compensar o cansaço caminhando mais rápido. Saia devagar. O corpo acorda no caminho.

Expectativa versus realidade no primeiro dia

Toda expectativa tem um pedaço de verdade e um pedaço de fantasia. No primeiro dia, a fantasia costuma perder.

Algumas expectativas comuns e o que costuma acontecer:

  1. “Vou sentir uma emoção enorme logo no começo.” Às vezes sim. Muitas vezes, o primeiro dia é tomado por preocupações práticas: a mochila que machuca, a seta que você não viu, o lugar para comer.
  2. “Vou fazer amigos imediatamente.” Pode acontecer, mas também é comum passar o primeiro dia mais calado, observando.
  3. “Vou estar em forma, treinei bastante.” O treino ajuda muito, mas a soma de mochila, terreno e ansiedade cansa de um jeito diferente.
  4. “Vou seguir o plano à risca.” O plano é um ponto de partida. O corpo e o clima ajustam o resto.

Nenhuma dessas diferenças é problema. Elas só mostram que o Caminho tem o próprio ritmo, e que o primeiro dia é de adaptação.

Entrega: o que significa na prática

“Entrega” é uma palavra que aparece muito em textos sobre o Caminho. Pode soar vaga, ou religiosa demais para quem não tem fé. Mas tem um sentido bem concreto.

Entregar-se, no Caminho, é aceitar que você não controla tudo. Você planejou a etapa, mas a chuva chegou. Reservou um albergue, mas o joelho pediu para parar antes. Esperava companhia, mas caminhou sozinho.

Na antropologia, Victor Turner descreveu a fase de transição dos ritos de passagem como um período “entre”: você já saiu da vida de antes e ainda não chegou à próxima. Nesse estado, as regras habituais afrouxam. O primeiro passo é a porta de entrada desse tempo. Entregar-se é aceitar estar nele, sem tentar levar junto todo o controle da vida comum.

Isso não significa abandonar o bom senso. Significa:

  • planejar, mas não brigar com cada mudança;
  • ouvir o corpo antes do cronograma;
  • aceitar ajuda quando ela aparecer;
  • deixar espaço para o inesperado.
Peregrinos saindo do vilarejo de madrugada no primeiro passo do Caminho

O primeiro passo do peregrino e o peso da mochila

Há uma metáfora óbvia no Caminho que, de tão óbvia, funciona: a mochila.

Comecei o Caminho Francês com 12 kg nas costas e terminei com 10 kg. Ajustar o peso no meio do percurso é comum, e por isso o assunto merece atenção antes do primeiro dia. O post sobre quanto deve pesar a mochila do peregrino traz as referências práticas.

A leitura simbólica é fácil de fazer: o que você carrega a mais vai pesar todos os dias. E o primeiro passo é um bom momento para se perguntar não só o que está na mochila, mas o que está na cabeça.

Cuidados práticos para um bom começo

O primeiro dia define muito do que vem depois, principalmente para o corpo. Alguns cuidados ajudam:

  1. Não exagere na distância. Mesmo que se sinta bem, o primeiro dia não é para provar nada. O post sobre quantos quilômetros caminhar por dia traz referências.
  2. Pare antes da dor. Ao sentir um ponto quente no pé, pare e cuide. Tive 8 bolhas no meu Caminho; bolha pequena tratada cedo dá menos trabalho que bolha grande ignorada.
  3. Beba água e coma ao longo do dia. A ansiedade faz muita gente esquecer.
  4. Saia cedo, mas sem pressa. Começar com calma ajuda o corpo a aquecer.
  5. Chegue ao albergue com energia para o resto do dia. Banho, lavar roupa, comer, descansar. O texto sobre a primeira noite em um albergue de peregrinos prepara você para essa parte.

Novos começos: por que o primeiro passo se repete

Uma coisa curiosa acontece no Caminho: o primeiro passo não acontece uma vez só. Toda manhã, você recomeça. Acorda, arruma a mochila, calça o tênis e sai de novo.

Essa repetição tem algo de terapêutico na visão de muita gente. Não importa como foi o dia anterior: amanhã há um novo trecho. Se ontem foi ruim, hoje é outro. Se ontem foi bom, hoje não depende disso.

Há uma palavra antiga que resume esse espírito de seguir em frente: “ultreia”. Ela aparece no Códice Calixtino, manuscrito do século XII ligado à peregrinação, no hino Dum Pater Familias, e costuma ser traduzida como “mais além” ou “vamos adiante”. Hoje é menos usada que o “Buen Camino”, mas ainda é ouvida entre peregrinos.

Leia também no Seu Mochilão:

Perguntas frequentes

É normal sentir medo no primeiro dia do Caminho?

Sim. Ansiedade, dúvida e até vontade de voltar são reações comuns. Na maioria das vezes, elas diminuem depois dos primeiros quilômetros, quando o corpo entra no ritmo.

Quantos quilômetros devo caminhar no primeiro dia?

Depende do seu preparo e do trecho. A recomendação geral é começar com uma distância confortável e aumentar aos poucos, ouvindo o corpo. Em trechos de montanha, como os Pirineus, a etapa é exigente mesmo para quem treinou.

O que significa “ultreia”?

É uma expressão registrada no Códice Calixtino, do século XII, no hino Dum Pater Familias. Costuma ser traduzida como “mais além” ou “vamos adiante”, e era usada como incentivo entre peregrinos.

E se o primeiro dia for ruim?

Não tire conclusões sobre o Caminho inteiro a partir dele. O primeiro dia é de adaptação. Descanse, cuide do corpo e recomece no dia seguinte.

O chão que responde

Você pode passar meses imaginando o primeiro passo. Pode ensaiar a emoção, planejar a foto, escolher a música. Mas ele só existe quando o pé encosta na terra e a mochila puxa os ombros para trás.

A partir dali, quem conduz não é mais o plano. É o caminho. E o caminho responde a cada passo com o próximo.

Fontes consultadas

Rafael Kosoniscs

Sou jornalista e publicitário, tenho 36 anos e viajo de mochila nas costas há 12 invernos. Tenho a mochilagem e o montanhismo como paixões. Vou publicar meu primeiro livro este ano – e você já está convidado(a) para o lançamento. Fique de olhos nas redes para não perder, ok? Siga: @seumochilao | @rafaelkosoniscs

Adicionar comentário

Clique aqui para postar um comentário

Planejamento

Inscreva-se!

Guia credenciado