Caminho de Santiago de Compostela

Os peregrinos medievais: como era fazer o Caminho de Santiago há mil anos?

Ponte medieval e vilarejo antigo, cenário dos peregrinos medievais do Caminho de Santiago

Os peregrinos medievais que seguiam para Santiago de Compostela não tinham aplicativo, previsão do tempo nem mochila técnica, mas tinham algo que muitos peregrinos de hoje nem imaginam: um guia escrito no século XII, com conselhos sobre rios perigosos, cobradores desonestos e onde encontrar abrigo. Entender como eles viajavam muda o olhar sobre cada ponte, igreja e hospital que você vai encontrar pelo caminho.

Este texto reúne o que as fontes históricas dizem sobre a peregrinação na Idade Média, sem romantizar e sem inventar. Onde a informação é lenda, ela vem marcada como lenda.

Como surgiu o fluxo de peregrinos medievais

Segundo a tradição, restos atribuídos ao apóstolo Tiago foram identificados na Galiza entre 818 e 842, no reinado de Afonso II das Astúrias. A partir daí, um santuário e uma cidade cresceram ao redor do túmulo. A origem completa está no post sobre a história do Caminho de Santiago.

De acordo com o London Museum, no século XI já chegavam a Santiago peregrinos de toda a Europa, e a cidade se tornou o terceiro destino de peregrinação mais importante da cristandade, depois de Jerusalém e Roma. Muitos londrinos, por exemplo, faziam a longa viagem e aproveitavam para visitar outros santuários pelo caminho.

O Códice Calixtino: o guia do peregrino do século XII

A principal fonte para entender os peregrinos medievais é o Liber Sancti Iacobi, conhecido como Códice Calixtino. Trata-se de um manuscrito compilado provavelmente entre 1138 e 1145. Ele foi atribuído ao papa Calisto II, mas o compilador mais provável, segundo boa parte dos estudiosos, é Aymeric Picaud, tradicionalmente descrito como monge. A autoria ainda é debatida.

O códice tem cinco livros: liturgia, milagres de Tiago, a trasladação do corpo do apóstolo, a crônica lendária de Carlos Magno e, por fim, o Livro V, um guia prático para peregrinos. É esse último que costuma ser chamado de primeiro guia de viagem da história.

O manuscrito guardado na Catedral de Santiago foi incluído no registro Memória do Mundo da UNESCO em 2017. E tem um capítulo policial: foi furtado do arquivo da Catedral em julho de 2011 e reencontrado em julho de 2012 na garagem de um ex-funcionário.

O que o Livro V ensinava

Segundo uma tradução do Livro V disponibilizada pela Universidade Yale, o guia tem onze capítulos. Entre os temas:

  • As rotas. Quatro caminhos, partindo de Saint-Gilles, Le Puy, Vézelay e Tours, na França, se uniam em um só em Puente la Reina.
  • As etapas. Pela passagem de Cize, nos Pirineus, o percurso até Santiago era dividido em treze etapas.
  • Os três grandes hospitais do mundo. O texto cita os de Jerusalém, Mont-Joux, nos Alpes, e Santa Cristina, no passo de Somport, como apoios dos pobres.
  • Rios bons e rios ruins. O guia alerta que alguns rios entre Estella e Logroño seriam mortais para pessoas e cavalos, como um riacho salgado perto de Lorca, e indica outros como seguros.
  • Povos e cobradores. Há críticas duras a cobradores de pedágio na região basca que exigiam mais do que o permitido, com pedido de punição religiosa para eles.
  • A Catedral. Uma descrição detalhada da basílica, com naves, portas e janelas.
  • Como tratar os peregrinos. O último capítulo pede que sejam recebidos com caridade.

Ler esses tópicos hoje é curioso. Muitas das preocupações são as mesmas: água segura, comida, abrigo, gente honesta. Só mudou o nível do risco.

Hospitais: o abrigo dos peregrinos medievais

Na Idade Média, “hospital” não era só lugar de tratamento. Era também hospedagem e assistência para viajantes pobres e doentes. O Caminho foi pontuado por essas instituições.

Roncesvalles

Segundo a cátedra de Patrimônio da Universidade de Navarra, a instituição de Roncesvalles remonta à primeira metade do século XII, por iniciativa do bispo de Pamplona, Sancho de Larrosa, com apoio do rei Afonso I, o Batalhador. No fim do século XII havia ali um grande edifício hospitalar. A capela do Espírito Santo funcionou como sepultura comunitária, facilitando o enterro de peregrinos a partir de cerca de 1200. É um lembrete sóbrio: nem todos chegavam ao destino.

O Hospital Real de Santiago

Na chegada, um dos símbolos dessa assistência é o antigo Hospital Real, ao lado da Catedral. Ele foi criado pelos Reis Católicos, Isabel e Fernando, depois da visita deles a Santiago em 1486, para acolher e tratar quem chegava. As obras, dirigidas pelo arquiteto Enrique Egas, aconteceram no início do século XVI. O prédio funcionou como hospedaria até meados do século XX e hoje é um hotel da rede Paradores. Já é fim da Idade Média, mas mostra como a ideia de cuidar do peregrino atravessou séculos.

Muitas igrejas e mosteiros também abrigavam caminhantes. O post sobre as igrejas e mosteiros mais importantes do Caminho Francês ajuda a reconhecer alguns deles pelo caminho.

Roupas, objetos e a vieira

Como se vestia um peregrino medieval? Uma insígnia de chumbo dos séculos XIV ou XV, guardada pelo London Museum, ajuda a responder. Ela mostra Tiago vestido de peregrino: capa, chapéu, bolsa a tiracolo e cajado. Era essa, em linhas gerais, a figura que se via nas estradas.

A vieira, segundo o mesmo museu, era o emblema de Tiago, embora ninguém saiba ao certo por quê. Os peregrinos compravam conchas verdadeiras no santuário e as prendiam à bolsa ou ao pescoço. Quando a procura superou a oferta, surgiram versões de metal. No século XIII, Compostela teria cerca de cem fabricantes licenciados dessas insígnias. A história completa do símbolo está no post sobre a vieira e outros símbolos do Caminho.

Portal românico com cajado e concha, símbolos dos peregrinos medievais

Os perigos da estrada

Seria romântico imaginar os viajantes da Idade Média caminhando em paz por campos floridos. As fontes mostram outra coisa. Pelo próprio Códice Calixtino, sabemos que eles se preocupavam com:

  • água contaminada ou imprópria;
  • alimentos que faziam mal a estrangeiros;
  • cobradores de pedágio abusivos e barqueiros desonestos;
  • falsos vendedores de relíquias;
  • doenças e cansaço extremo.

As pontes eram pontos estratégicos para atravessar rios com segurança, e muitas sobrevivem até hoje. O post sobre as pontes históricas do Caminho de Santiago conta algumas dessas histórias. Ordens militares também tiveram papel na região ao longo da Idade Média, assunto do post sobre o legado dos templários no Caminho.

O que mudou e o que continua igual

Hoje você caminha com tênis respirável, reserva albergue pelo celular e confere o tempo antes de sair. A estrutura é incomparavelmente mais segura. Mas algumas coisas continuam:

  1. A rota. O Caminho Francês ainda passa por lugares citados no guia do século XII, como Puente la Reina, Estella e Logroño.
  2. A hospitalidade. Albergues de peregrinos herdaram a lógica dos antigos hospitais.
  3. A vieira e o cajado. Viraram símbolos, e muita gente ainda os carrega.
  4. A mistura de povos. No século XI, chegavam pessoas de toda a Europa. Hoje, chegam do mundo inteiro. No meu Caminho, em 2019, conheci em Viana o Ron Ting, um peregrino malaio.

Na minha visão, essa continuidade é um dos motivos pelos quais vale estudar os peregrinos medievais antes de partir. Você deixa de andar só por uma trilha e passa a andar por uma história.

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Perguntas frequentes

O que é o Códice Calixtino?

É um manuscrito do século XII, também chamado Liber Sancti Iacobi, dividido em cinco livros sobre o apóstolo Tiago. O Livro V funciona como um guia prático para peregrinos e é considerado um dos primeiros guias de viagem da história.

Quem escreveu o guia do peregrino medieval?

O códice foi atribuído ao papa Calisto II, mas estudiosos consideram Aymeric Picaud o compilador mais provável. A autoria continua em debate.

Onde os peregrinos medievais dormiam?

Em hospitais, mosteiros, igrejas e casas que acolhiam viajantes. Roncesvalles, nos Pirineus, foi uma dessas instituições desde o século XII.

Por que os peregrinos usavam a vieira?

A vieira era o emblema de Tiago. Os peregrinos compravam conchas no santuário e as prendiam à bolsa ou ao pescoço, como sinal da peregrinação feita. A origem exata do símbolo não é conhecida.

Pegadas por baixo das suas

Quando você atravessar uma ponte de pedra na Navarra ou entrar numa igreja românica em Castela, lembre que alguém passou por ali há quase mil anos, com uma capa nas costas, um cajado na mão e um guia que avisava de qual rio não beber.

O chão é o mesmo. As pegadas, não. Mas, de algum jeito, elas continuam por baixo das suas.

Fontes consultadas

Rafael Kosoniscs

Sou jornalista e publicitário, tenho 36 anos e viajo de mochila nas costas há 12 invernos. Tenho a mochilagem e o montanhismo como paixões. Vou publicar meu primeiro livro este ano – e você já está convidado(a) para o lançamento. Fique de olhos nas redes para não perder, ok? Siga: @seumochilao | @rafaelkosoniscs

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